O Estado contra as Biscates

Era tarde quente, eu buscava exercer a quase impossível tarefa da locomoção em São Paulo. Ah, São Paulo, este “point” de gente conservadora, de governo e prefeitura ainda piores do que o povo. É fogo. Fogo estava aquela tarde.

Na tentativa de distrair – e disciplinar – a população, agora há televisões nos ônibus também, além de nos metrôs. Claro que a programação é vendida para uma das poucas emissoras grandes que continuam controlando a informação. Mas o ponto não é esse.

O ponto é o cúmulo. O extremo. O abuso.

Eis que na televisão do ônibus começam longos três minutos dedicados exclusivamente a mostrar às mulheres como não se vestir. De repente, sem contexto nenhum, uma tela amarela mostra desenhos de corpos femininos com roupas de periguetes e grandes “X” vermelhos sobre as peças de roupa, acompanhados de uma legenda, caso as periguetes não tenham entendido que estão erradas: “não use saias ou shorts curtos ou justos”. Assim. Pá-pum.

O show de horrores segue. Uma outra imagem mostra uma mulher com uma calça jeans que deixa a barriga de fora e uma blusa curta. Outros “X” vermelhos e a legenda: “não use calças justas” e “não mostre o umbigo”.

Minha sensação era de querer tirar a roupa inteira, e nisso estou com o Femen. A corporalidade. O corpo. Nossos corpos. NOSSOS. Se absolutamente todas as pessoas são vítimas de um controle disciplinar promovido por alguns grupos que dominam o Estado (viva Foucault!), é fácil perceber que as mulheres são especialmente atacadas.

As leis de controle do corpo e tutela da autonomia sobre ele são dedicadas especialmente a nós – homem não aborta, né? Nosso corpo é um grande objeto de disputa pública, é preciso estar consciente.

É preciso notar o corpo.

É preciso amá-lo.

É preciso jogar uma pedra em cada um dos discursos que sustentam esse controle absurdo, abusivo. Por parte do Estado ou de outras pessoas.

Quero um mundo de periguetes livres.

 

Sobre Marília Moscou

socióloga, escritora, poeta, comunista, feminista, bissexual, não-monogâmica (ou anti-monogamia?)
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21 respostas para O Estado contra as Biscates

  1. Paula disse:

    Já vi esses vídeos, e não só em TVs de ônibus/metrô mas já vi esse tipo de coisa em revistas e vários outros lugares por aí. Que nos deixem em paz para usar a roupa que queremos e vão cuidar de suas vidas! Ou melhor, vão cuidar de algo que seja realmente importante, porque os problemas estão aí pela cidade, não precisa nem ser esperto pra ver.

    • Marília Moscou disse:

      A diferença do caso do ônibus é que é um espaço público! A revista é uma empresa privada. O ônibus é concessão do ESTADO!

  2. alexandre moreira disse:

    São Paulo …..quando é que vai deixar de ser o repositário do anacronismo comportamental…?!!!
    A sensação da eterna cidade de passagem…lixo de janela aberta. Moralismo de teleónibus !!! Conseguimos !!! Agora é esperar pelas ligas assanhadas debaixo das longas saias evangélicas numa corporalidade doentia…e pensar que a idade média já tem mais de quinhentos anos e torquemada é o herói do governador da maior cidade da américa latina. Que medo. Ótima denúncia! Parabéns.

  3. mah disse:

    seus textos são ótimos!

  4. anonimo disse:

    Marília, você realiza que as pessoas gostam disso?

  5. ahndji disse:

    esses videos são de um outro contexto, do contexto da moda. onde, sim, mostrar a barriga é feio, sim, calça justa fica mal, etc etc etc.
    e, por se tratar de um video que passa no onibus, você pode imaginar que essas são dicas para mulheres que trabalham (que estão indo ou voltando do trabalho, provavelmente) e que, como sempre teve por aí, funcionam como “dicas de etiqueta” e não “de um controle disciplinar promovido por alguns grupos que dominam o Estado”. gente, é roupa. é moda. é só isso.
    gloria kalil falava isso e coisas piores em rede nacional (alo, chics! jornal nacional!) e ninguém saía tirando roupa e queimando sutiã.
    claro que ninguém é obrigado a aceitar ou a entender e esse pode ser um erro de isso ser passado numa programação “aberta” mas eu acho que o proposito do canal é o de falar de vários assuntos mesmo. e o canal que controla essa programação é a tvo, um canal parceiro da bandeirantes.
    enfim, achei o post exagerado e sensacionalista.

    • Marília Moscou disse:

      Meu caro companheiro que jamais saberá o que é ser mulher: a moda é, mesmo para você, um instrumento de controle do corpo. Como disse, Foucault mandou lembranças. Seria bom dar uma lidinha, a dica está aí.

      A reflexão que proponho é: porque a tevê do ônibus não tem um programa que ensina como os HOMENS devem se vestir? Detalhe importante é que o programa não dizia nada sobre contexto profissional, só dizia o que “pode” e o que “não pode”. Faz toda a diferença do mundo.

      Muito fácil achar exagerado o que não está tentando normatizar o seu corpinho masculino.

      • ahndji disse:

        não vou entrar no lance do “seria bom dar uma lidinha” e da defensiva porque, né, eu só fiz uma crítica e, juro, tentei procurar entender o lance pelo viéis feminista e tudo mas sinceramente acho exagerado.

        quanto a sua pergunta, eu acho que a “tevê do ônibus não tem um programa que ensina como os HOMENS devem se vestir” porque o publico masculino não “pede”/consome isso. num geral, as tvs mostram o que as pessoas querem ver. NÃO TO DIZENDO QUE TODA MULHER QUER SABER O QUE FAZER OU NÃO (pelo contrário, acho idiota quem segue “dos” e “dont’s” da moda) mas não é à toa que uma programação do contexto da moda esteja passando na tv de UM ONIBUS: hoje em dia o mercado de moda tá numa ascensão muito grande (blogs de moda tomando conta, bafafá de grife na midia de massa, etc) e o publico feminino, NÃO TODAS MULHERES, consomem esse tipo de informação. achar errado essa “ditadura” da beleza eu também acho, só não acho que tem a ver com Governo e nem com um “controle disciplinar” e nem com o fato alguém “dar uma lidinha”.

  6. Alexandre Martins disse:

    É bem ingênuo não enxergar um contexto de dominação numa normatização única e exclusiva para mulheres. Ou meio tapado, meio príncipe Michkin, sei lá.

    E queridinho, caps lock não torna seu argumento mais válido, só menos simpático.

    🙂

  7. ahndji disse:

    gente, cês não sabem responder crítica sem sarcasmo e cinismo? que horror.
    usei o caps lock pra grifar partes, não pra deixar nada mais válido. vocês distorcem tudo de acordo com o proprio umbigo. eu, hein.

    se eu não enxergo o contexto de dominação, tenta me convencer (da forma que eu tentei abrir uma discussão) ao invés de ficar com essa atitude.

    o meu ponto gente, é que o governo não tem ligação direta com isso. se algo tá errado, a responsabilidade é da tvo, da rede bandeirantes. parte da “culpa” pode ser do governo por contratar essa tv, mas não é direto. não é o governo te dizendo o que vestir ou não – é uma parte de uma programação de uma emissora de televisão.

    se a gente for encarar como “culpa do governo” tudo que a gente vê em algum lugar público, o governo seria responsável por todos os problemas da sociedade, mas ele não é. ode até ser por grande parte, mas não por tudo. então, pra mim, esse post se enquadraria melhor se fosse uma crítica ao mercado de moda, não ao “estado”. simples, não precisam me odiar.

    • Marília Moscou disse:

      Pra te convencer é que eu sugeri que vc leia Foucault. Ele vai te convencer bem melhor do que eu, tenho certeza. Não sou obrigada a tentar convencer vc se vc não está disposto nem a conhecer a base do que estou falando, né?

      Se vc acha que governo e Estado são a mesma coisa, enquanto governo e rede bandeirantes são coisas diferentes, taí um problema que eu não posso resolver por ti.

  8. Alexandre Martins disse:

    Quem começou com sarcasmo escroto foi você dizendo sobre queimar sutiã num blog feminista. Esperava o que, um abraço?

    Você tem realmente interesse em ouvir o outro lado da moeda? Porque se tiver, tem pano pra manga aí. Nem me atrevo a escrever sobre isso. Não é minha área, não estudo isso. As meninas aqui podem escrever laudas infindáveis sobre isso com muito mais acuracidade que eu.
    Mas casar com uma feminista me ajudou a enxergar um pouco mais essas diferenças que são impostas em prol de manter a mulher numa posição submissa na sociedade.

    • Marília Moscou disse:

      Pois é; a questão é se perguntar por que é que as mulheres consomem mais moda do que os homens? Está tudinho ligado. São uma série de dispositivos de poder que atuamos todos os dias!

      • ahndji disse:

        tenho sim! se não, não teria comentado. de verdade, gente, não quis ofender ninguém.

        e você não sugeriu que eu lesse nada, você foi sarcástica dizendo que eu deveria ler mais. (sem nem saber qual era o meu background.) e, saindo um pouco do contexto da postagem e da discussão, acho importante pra um blog que cita nomes, apresentar as referências. afinal, você leu foucault, mas e quem não? eu não li e por isso meu comentário não pode ser levado em consideração? e sugerir leitura é indicar livros, artigos etc, não dizer “dar uma lidinha” ou “viva foucault!”. de novo, não quero ofender ninguém. espero que entendam minhas criticas como construtivas.

        eu tenho amigas dos dois lados da moeda: feministas e da moda. as feministas são contra essas regras toda, as da moda não enxergam que é uma “ditadura” e nenhum dos lados tenta entender o outro e buscar um equilibrio. por isso eu comentei e quis abrir uma discussão. e, posso estar errado, mas quando digo “governo” me refiro ao governo do estado.

        • Marília Moscou disse:

          Já passou pela sua cabeça que “feministas” e da “moda” não são coisas excludentes?

  9. Paloma disse:

    Que blog maravilhoso. Me deparei com este texto hoje e concordo com tudo. Parabéns!

  10. Isabel Hargrave disse:

    É o oposto daquela propaganda da Hope com a Gisele Bünchen, em que marcam com um X quando a mulher está com “roupa demais” (ou seja, roupa.) pedindo um “presente” para o conjuge, e com um “certo” quando ela pede o presente de lingerie. Mas a base é sempre a mesma: ditar o comportamento da mulher. É tão irracional essa idéia de que o corpo feminino sozinho provoca, atiça a sexualidade masculina. É exatamente o mesmo discurso de algumas religiões que dizem que a mulher tem que esconder seu cabelo, pois ele é sensual. E é tão absurdo ninguém nesse mundinho se lembrar de que existem sociedades em que as mulheres andam com os seios expostos, ou com o corpo todo exposto, e que nem por isso os homens dessas sociedades saem por aí estuprando todas elas.

    • Professora Nina disse:

      Será que não? Já viu o índice de estupros na África?

      • Cara Professora Nina,

        não é política do blog publicar comentários que não acrescentam nada à discussão, que se fundamentam em premissas falsas ou deturpam a realidade. Assim, seus outros dois comentários não serão publicados e, caso você volte a comentar no mesmo estilo, o mesmo acontecerá no futuro.

        Então, pra resumir, a gente te volta a pergunta: você já viu o índice de estupros na África? Já estudou sobre a colonização desse continente? Como a violência contra a mulher é disseminada nesse continente? Como as relações de poder se estabelecem e fundamentadas em que? e por aí vai…

  11. Marília, seu artigo me despertou curiosidades:
    vc pediu ao motorista para desligar a TV?
    Alguém já consultou o código do consumidor para saber se os passageiros são obrigados a engolir esse lixão?
    Com Foucault pensei ….
    Essas matérias que andam sendo exibidas nos canais abertos, fechados, nos transportes públicos veiculando um ideal de corpo… Há algo que escapa! As mulheres continuam se vestindo do seu seu jeito, de acordo com seu poder aquisitivo, seu desejo. Essa resistência, poderia ser mais pontual se fossemos mais severa…
    Imaginem só se, no dia em que Marília pegou o ônibus, alguma mulher levantasse e pedisse seu dinheiro da passagem de volta caso essa TV não fosse desligada. E todas as passageiras-mulheres gritassem “desliga”ou “minha passagem de volta”. Como as mulheres são tolerantes, pacienciosa como a Griselda do conto de fadas… a Tv vai continuar ligada!
    Abs. Noemi

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