A Outra é Sempre uma Biscate

Por Ana Beatriz, nossa Biscate Convidada*

Alerta: Texto com altas doses de ironia.
Se você se apega ao pé da letra, ela te chuta, ok?

Nada mais certo para ter sucesso na carreira de biscate do que “herdar” o marido ou namorado de alguém. Não importa o seu curriculum vitae, a sua trajetória pessoal ou o seu trabalho como voluntária em uma missão de paz das irmãs carmelitas: você vai ser chamada de biscate, não importa o quão exemplar tenha sido o seu passado! Todos terão certeza de que a mulher que roubou aquele homem sério é uma biscate desclassificada que só pensa em sexo, uma ninfomaníaca insaciável que virou a cabeça de um homem exemplar (embora um tanto ingênuo).  Não, ele não pode ter se apaixonado por você por causa da sua inteligência, do seu senso de humor ou da sua risada gostosa: a única coisa que faria a cabeça de um homem virar é o sexo selvagem praticado por uma biscate destruidora de lares.

A família toda comenta que ele está enrabichado, de cabeça virada ou que levou uma chave de coxa (ou outra palavra com a mesma intenção). É nesse ponto que a crise se instala como um contraponto entre a mulher direita (a oficial) e a biscate (amante, outra, vagabunda etc) estabelecido como um padrão de conduta social para as mulheres que querem manter o seu homem (marido, namorado, caso etc.).

Desde cedo aprendemos que a única forma de conquistar um homem é abster-se de sexo. Você quer que ele case com você? Não seja fácil! Mantenha o interesse masculino estabelecendo uma relação de caçador e caça. Homens não gostam de mulheres fáceis, que se entregam no primeiro encontro e cedem aos desejos masculinos. Conseguiu se casar? Muito bem, agora faça greve de sexo toda vez que quiser conseguir alguma coisa do seu macho alfa provedor.

É exatamente nesse ponto que eu fico confusa: um relacionamento pleno e feliz não envolve sexo? Em que momento o sexo foi alijado dos relacionamentos sérios e se tornou um elemento de barganha? Eu não conheço uma biscate que tenha medo ou se sinta ameaçada por outra mulher no que diz respeito ao sexo no relacionamento. Parece que algumas pessoas substituíram a afetividade (que pode ter a sua expressão máxima em relações sexuais de qualidade) por coisas. O convívio é repleto de contas a pagar, coisas para comprar e compromissos vazios. As mulheres são levadas a acreditar que o fato de ser virtuosa – abstendo-se do prazer sexual – garantirá o amor eterno, que ser esposa/namorada é se preocupar com coisas sérias como cuidar da casa e dos filhos. Sexo é para as biscates desclassificadas que insistem em ameaçar a perfeição dos seus lares.

Aí, em um dia qualquer de agosto, surge uma biscate com uma conversa interessante na rede, ideias feministas e que acredita piamente que sexo é diversão de primeira qualidade. A biscate é tão independente e bem resolvida sexualmente que o homem exemplar, depois de décadas em um casamento modorrento, sente uma coisa estranha no peito.  O coração dele começa a bater ao ponto do sujeito não conseguir respirar. Quando ele pensa que está morrendo, descobre algo surpreendente quando não esperava mais nada da vida: está completamente apaixonado… por uma biscate!

A relação familiar se dissolve, se reconstruindo rapidamente em outras estruturas e por outros caminhos. A oficial e a biscate não são figuras antagônicas em nenhum cenário, as duas são vítimas de uma sociedade que dissemina a hipocrisia e reforça estruturas familiares completamente falidas. A diferença entre elas é que a biscate já sabe disse há mais tempo e decidiu se rebelar contra o sistema. A mulher direita só descobre isso da pior maneira possível.

*Ana Beatriz é uma carioca que escolheu viver no Nordeste. Coisas do coração. E as praias ajudaram na decisão, ela alerta. Professora na UFPE, dirige seu olhar inquiridor e curioso buscando entender as tecnologias na Educação. Feminista, mais acirradamente ao curtir suas 3 filhas. E ainda se rebola e se faz blogueira aqui (clica e descobre). Quer seguir? @anabee.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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12 respostas para A Outra é Sempre uma Biscate

  1. Eita bisca boa de texto! 🙂
    Amei!
    Muuaaaaaa… teacher querida!

  2. Relacionamentos estão se firmando de maneiras inusitadas alimentadas por apenas 140 caracteres, ou mesmo um inocente “curtir”. Onde antes entrava o jogo da saia curta e decotes avantajatos. Surpresa !!! Corações estão sendo arrebatados por “emoticons”, e conversas que, se não fossem executadas entre um IP e outro, seriam perfeitamente encaixadas em uma cama de motel. Preparem-se “titulares” antiquadas, as biscates tornaram-se ubíquas. 🙂

  3. Mariazinha disse:

    Ameeeeeeeeeeeeei! Estou vivendo exatamente este momento, estou descobrindo como é ser “a outra”. Fugi de um homem que muito me interessava por meses só por ele ter namorada. Resolvi viver essa história com leveza, humor e sem culpas e muita biscatice e estou adorando ser feliz!

  4. Belíssimo texto.

    E isso aqui: “Homens não gostam de mulheres fáceis, que se entregam no primeiro encontro e cedem aos desejos masculinos. ” tem certa cosia que me faz pensar de que espécie eu sou.

    Se bem que biscate nunca é mulher fácil, é mulher difícil, por complexa e é disso que os ogros gostam.

    • Mariazinha disse:

      Concordo plenamente. A biscate é a mulher + complexa de todas porque é cheia de nuances. É difícil reconhecer uma verdadeira biscate…

  5. Mari Andrade disse:

    Super me identifiquei!!! Com a biscate, é claro!!!! ahahahahah
    Tenho uma relação aberta com meu namorido, e um dia ele perguntou se eu sairia com alguém que fosse casado e eu respondi que sim, que se tem alguém quebra acordo/contrato é o outro e não eu.

    Aliás, acho horrorosa qualquer forma de chantagem e barganha. Conheço um homem, com quem tive algo há muito tempo, nos reencontramos há poucos meses e estávamos conversando coisas bem picantes na net, é um dos maiores biscateiros que eu conheço. A esposa sabe do que ele faz (mesmo porque já pegou uma de nossas conversas) e o chantageia o tempo todo ameaçando ir embora e levar a filha (que já é uma adolescente). Aí ele sai das redes sociais, muda de telefone, e depois que a poeira abaixa ele volta, e o ciclo de chantagens recomeça.

    Se eu fosse ela já teria deixado de ser bobinh… ops! tratado de aprender a lição e exigido igualdade no casamento faz tempo!

    Bjo

  6. É tão bom saber que as pessoas se identificam com essas situações! O curioso é que a relação oficial/outra biscate é atemporal, as histórias que a minha mãe sempre me contou são iguais ao que a Mari relatou. Fico me sentindo meio alienígena diante de relações tão sem sentido, mas é importante saber que precisamos reafirmar a nossa condição de igualdade nos relacionamentos.

  7. renatalima91 disse:

    Ser a outra é complicado.
    Porque até biscates são “traídas” por outras biscates – ou nem tão biscates, claro.
    Biscates podem ser “trocadas” por “mulheres incríveis”, e vice-versa.
    (please, atentem para as aspas, sinal de ironia, na falta de sinal melhor!)
    A questão é que ninguém é “trocado” ou “largado” ou traído por causa só do sexo.
    E biscates, somos muito mais que sexo, óbvio.
    Relacionamentos vem e vão, e o que não era pra ser, não será.
    Biscates, como nos definimos, quebramos a cara, somos a outra e somos aquela, a oficial.
    A diferença, eu acho, é que sabemos que “a outra” não é a culpada pelo nosso relacionamento fracassado – alias, fracassado na visão de quem, cara-palida? – e sim a dinâmica de uma relação entre dois seres, duas pessoas, que viveram o que era possível.
    Já fui a outra, já fui aquela.
    Hoje, gosto de pensar que sou EU.
    Eu e meus amores, eu e minhas escolhas.
    Eu e o outro.
    Se algo dá errado, não há culpados, nem inocentes.
    Há seres humanos, e nossas expectativas as vezes irreais.
    Surreais.
    Adorei o post.
    Bem vinda ao nosso clube!

  8. Paula disse:

    Amei o texto. Nunca cogitei fazer greve de sexo, até mesmo porque, acho que a maior prejudicada sou eu! hahahaha

  9. Penso do mesmo jeito que a Renata, as relações são repletas de meandros e talvez o ponto-chave dos relacionamentos seja a fluidez. Somos hoje a outra, amanhã já estamos como a oficial, podemos “roubar e ser roubada” (expressão equivocada, é claro!) o tempo todo. O que mais me choca (e o que me motivou a escrever o texto) é que ainda existem muitas pessoas que continuam estabelecendo relações complexas no preto e branco, sem nuances de cinzas ou outras cores. Só existe a possibilidade de estar entre dois lados, como se amar fosse simples assim. Todos nós podemos nos apaixonar por outra pessoa em qualquer instante e é exatamente isso que nos move! Fiquei com invejinha da Mari, eu adoraria experimentar um relacionamento aberto, mas o meu lado criança carente ainda me faz ter surtos de posse e ciúmes. Juro que estou tentando evoluir como ser humano e encarar as coisas na proporção que elas realmente são (pessoas adultas com autonomia para experimentar outras coisas), mas tá difícil… Acho preciso reencarnar mais umas duas vezes para dar conta disso! 🙂

  10. O texto de Ana é perfeito e relata um filme real das consideradas “perfeitas damas” que juram que trepar, fazer amor, sexo, sentir orgasmo, etc e tal é pecado. Não abrir as pernas ou ficar de torno, fazer uma caqueira voadora ou quem sabe uma candelabro italiano é coisa que só acontece nas famílias de Londres ou em sexo Pornô. Tudo isso por quê? Não fomos ensinadas a ser biscate(o que não significa que não podemos ser), o que é uma pena..ser bisca é Maravilhoso.. perdoe-me quem não sabe, não quer, tem raiva de quem sabe ser, ou não gosta de fazer uma boa apresentação de currículo(posição perfeita!). Analiso nas palavras de Ana a condição imposta pela sociedade, pois fomos ensinadas que mulher decente e que se preza não deve fazer isso ou aquilo, nossa obrigação é:dar, calar e procriar(abre as pernas e espera o varão te encher de esperma, não interessa se você gozou, o importante é você ser o depósito-homem pode, mulher não-é feio) ou seja, se você é do tipo mulher matemática na hora que sente o orgasmo(Diz:mais, mais e mais) é uma biscate da pior espécie. Parece-me que ainda existem mulheres que se submetem ao triste depósito. Bom, cada cabeça uma sentença. Penso, exatamente ao contrário, embora tenha feito tudo como desejavam de uma menina pura de interior; que de pureza só os orgasmos sabiam quantos(mesmo com um único homem) por que não? Não sou do tipo que pensa em quanto tempo estar com o parceiro, mas na intensidade do que vivo, do que sinto e principalmente do que me realiza. Acredito que o casal deve namorar a cada dia, renovar, mudar, mesmo com tantas situações complicadas que suscita desde a divisão de responsabilidade diversas a cuidar de filhos, etc), loucura todo casal tem, arranca rabos, ciúmes, posses, enfim..que homem não deseja uma mulher biscate na cama e uma dama na sociedade? Se não conseguem ser, então tem gente talentosa usando todo seu talento e comendo o varão que foi desprezado ou mal comido..não é TIM, mas é simples assim! “Ninguém é de ninguém” já diz Zíbia. Se me permitem um conselho aí vai: Mulheres abandonem esse passado miserável que a condenaram, deem mais, libere a biscate que existe em você, não se iludam, ser difícil, fazer greve, não vai trazer seu varão de volta, estar no cio ou não é algo que só você pode decidir. Se achar que vale a pena, faça valer e curta o momento, temos o direito de reconstruir a vida, se não deu certo com um, dará com outro e a vida segue, mas de preferência que seja com alguém que saiba trabalhar nos 3 pilares principais do corpo feminino: cabeça, tronco e membros e seja experiente, “safado” o suficiente em anatomia… Já dizia Freud “Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada”! Que segurança existe em um relacionamento se não fizer o que deseja, pra que usar máscaras de santos se no fundo tod@s gostam mesmo é de emprestar e usufruir do empréstimo corporal até a última gota(melhor dizendo: adoramos ser bem comida e com força).O próprio Freud em uma carta à Marie Bonaparte declarou:”Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que uma mulher quer?” Portanto, Uma biscate que se preza conhece bem sua presa.

    Ciberbeijos desta bisca indígena…

  11. Eu mesmo!!! disse:

    Bando de biscates!!! Eu sou um homem ingênuo, trabalhador, familiar e que fazia sexo para fins reprodutivos. Achei minha bisca!! TÔ FELIZ!!! hahahahahahaha

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