Desfrutável

Hoje só tem prazer, riso solto, desfrute. Adoro essa palavra: desfrutável. Bonito, né? Lembra manga escorrendo no canto da boca. Quero ser fruta: suculenta, macia, saborosa. Acho gostoso imaginar-me para o deleite. Faz tempo que digo: vim a passeio. Eu sei que vivemos uma época em que a alegria fácil e a aceitação do prazer não é muito bem vista. Onde estão as minhas olheiras? Não tenho! (quer dizer, até tenho, mas é de passar a noite em risos). Recuso-me a aceitar os discursos, sejam religiosos, científicos ou políticos, que me incitam à regra, ao controle, ao limite. Seja mais contida, dizem. Digo eu: não. Quero é meu corpo pleno, quero os sabores todos e quero com voracidade. Quero em alimentos que, serelepes, inscrevem o prazer na língua. Quero essa mesma língua em beijos. Quero deixar-me horas a ouvir Callas, olhos fechados, sangue pulsando na testa, no pescoço, no ventre. E quero ouvir os quase silêncios da respiração descompassada do outro na cama. Quero ver Caravaggios, o negro me ensinando matizes. E quero abrir as janelas, deixar o dia se fazer quadro e promessas de luz. Quero sentir o cheiro do desejo, o suor alheio se entranhando em mim e quero a brisa do mar brincando de desalinhar meus sonhos. Quero meu corpo em expansão. Maior, mais meu. Quero sentir o tempo se fazendo vida no corpo. Quero aprimorar quereres. Quero chegar assim ao mundo: em anseios. Quero os objetos do mundo, novos e outros sabores. Deleite. Há livros assim, não é? Para o deleite. Livros que se fazem alimento do gozo. Livros tenros, pra serem apreciados não só com olhos, mas com mãos e boca e nariz. Livros pra ler com a pele.

 Eu, hoje, me quis livro. Ali, nas tuas mãos, revelar-me letra a letra. Como se o que já foi dito fosse futuros. Um livro de pequenas e reveladoras notas de rodapé, para que você me desvende. Um livro de enormes e óbvias imagens, para que você me perceba. De palavra em palavra, um livro que se entrega. Fácil. Uma cartografia do desejo, talvez. A ser lido em braile. Não tenho medo de ser objeto, aí, na tua mão. Sei demais que é em pêndulos o amor, quanto mais sujeito do meu desejo, mas posso me permitir ser tomada. Então, um livro para o desfrute. Para que se faça proximidade, ainda que em fantasias. Disse Terêncio e eu com ele: nada do que é humano me é estranho. Mas, reflito: a não ser talvez, a vida. Tão outra, que é nossa. Mas a nossa, tão própria, que é outra. E nos escapa. E só a encontramos no Outro. Especialmente no olhar do outro. No desejo do outro. Mantemos, claro, nosso dizer. Circularmente: sou livro. Para o desfrute. Quando menina ouvia assim: aquela é das que se dá ao desfrute. E via o riso fácil, o gesto largo, o calor. Adivinhava o conforto de ser aquele corpo, em roupas largas e cores fortes. E queria ser dessas que se dá. Ao desfrute. Decifra-me e devora-me. Tateie. Ache. Pegue. Venha. Desfaça os laços da camisola ou os nós da história, mas chegue.

 Isso, claro, se não fosse tudo literatura e a vida não fosse aquela tal história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada. E Shakespeare não fosse um daqueles. Daqueles desfrutáveis.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
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11 respostas para Desfrutável

  1. gilsonmhjr disse:

    Desfrutável! Uma manga literária.

  2. Cláudia disse:

    Minha desfrutável favorita. Sempre. Adorei o texto🙂, Lu: sensacional!

  3. leticia disse:

    Tb adorei o texto…e quero, sempre mais, ser um pouco mais “Lu”….adoravelmente desfrutável!

  4. Queridos, obrigada pelo olhar generoso. Que sejamos sempre mais capazes de sentir o sabor do viver, né?

  5. chrisht2 disse:

    Mais tem uma hora que você se apaixona pelo “idiota” e tudo que antes ele fazia que você não ligava, passa a machucar de uma certa forma que…não dá pra ser forte todo tempo..me apaixonei e nem sei o que fazer, na verdade estou com medo de fazer algo e acabar percebendo que fiz errado, ME AJUDEM😥 snif meu contato: chrisht2@hotmail.com

  6. E tem cada texto nesse blog que me deixa arrepiada. Diz o que eu sempre quis dizer. Texto para intenso desfrute

  7. Tiago Dias disse:

    indicado por uma amiga e totalmente aprovado, leitura gostosa como há tempos não via pela internet!!!

  8. Renata Lins (@repimlins) disse:

    Adorei, Lu. Não tinha visto. Acho desfrutável uma palavra linda, também. Suculenta. Saborosa.

  9. Nina Araújo disse:

    Texto gostoso como uma manga, Lu. Palavras assim a gente tenta chupar até o caroço, deixa deslizar na ponta da língua e na vida. Adorei já é fichinha, tenho de procurar novos elogios.
    Bisous, Biscas! .)

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