Um Bicho Bem Bolado

GUEST POST por Gilson Moura Henrique Junior*

Escrever sobre Mulher não é nada fácil.

Apesar do mandamento pessoal de que nada, absolutamente nada, é simples, diante da multiplicidade  de fatores que a tudo influenciam e tornam praticamente todos os âmbitos de nossa vida sob o manto do subjetivo, o arcabouço de significantes que o objeto “mulher” tem, e não a mulher-objeto, não faz do assunto ser bolinho.

O meio de campo embola entre a estruturação de um “mulher” desumanizada, catalogada numa gaveta onde se lê “mãe, dona de casa e servil” e a divisão sistemática que o mundo masculino adora e nada de braçada ao abraçar entre “mulher pra comer ou pra casar”. Isso sem contar as diversas determinações que opõe ativismo feminista a delicadeza, força e agressividade vinculada a lesbianismo, etc.

Além disso tudo, a própria condição de macho, masculino, branco e hétero me torna automaticamente membro do grupo “de risco” da perpetuação de todos os rótulos e conceitos que generalizam a “mulher’”entre esta ser um bicho incompreensível misturado a uma eterna rebelde diante de papéis “fáceis” que esta “tem” de executar para ser uma “mulher respeitável”. As inúmeras aspas  já dão a linha do problema prático, científico, político e sensível, no âmbito pessoal, que falar sobre mulher traz consigo.

A partir dessa introdução plena de explicações que soam quase que como uma desculpa, resolvi mandar às favas os escrúpulos da consciência e declarar numa mistura de termo machista recuperado pelo bom-humor com um cinismo leve pra por a cachola pra sambar na cara da sociedade: Mulher é um bicho bem bolado.

Bem bolado para além dos desejos sexuais e estéticos do escriba, mas pelo arcabouço de significantes que essa belezinha traz pro dia a dia das cacholas plenas, diante do simples fato que mulher, este ser humano que precisa antes de mais nada driblar a la Neymar a perseguição de tantas camisas de força que a buscam despersonalizar, não é apenas um ser humano do sexo feminino, e sim a líder de um cortejo onde é perseguida pelas palavras “mãe”, “esposa”, “hétero”, “submissa”, “serva”, “irmã”, “filha” e fatalmente pelas expressões “deve obediência” e “pra casar” ou “pra comer”.

Mulher, apesar de bem bolado, é algo sempre visto sob ângulos que por vezes mal saem da bunda ou da prochaska. Ouvir uma mulher é algo que é considerado virtude pela sociedade. Quantas vezes não se ouve “esse homem é ótimo, é um bom ouvinte”? Ou seja, ouvir a mulher é considerado virtude pelo raro disso, pela voz da mulher ser considerada no âmbito social, e reproduzida no psicológico, como inaudível ou insignificante para a lógica das decisões cotidianas.

A estética para a mulher tem peso dois, a mulher não pode ser feia, sob pena de ter piadas a seu respeito indicando que estupro pra ela é bom. Homem feio ainda tem o migué de ser chamado de charmoso, mulher feia é quase colocada a ferros. Fora a necessidade atávica da beleza como pré-requisito, o rosto, a bunda, os peitos, as coxas são mais importantes que ela. É claro que como fenômeno social recente, de ao menos 60 anos, isso pega também pro lado macho, mas o peso maior é sobre a mulher que precisa ser bela “para arranjar bom marido”. Além disso tudo a lógica de ser “prendada”, de ter o domínio das “artes do lar”, em um papel restrito a ela, mulher, como se uma condenação, como se a casa fosse residência, mundo privado, dela, apenas dela. O mundo é dos homens, a casa é da mulher.

Esses são apenas exemplos isolados de um sem número de questões, a lógica própria  da sociedade produz outras como a culpabilização da mulher pela conquista de direitos e por estes, por óbvio, também trazerem, qual uma maldição de pandora, ônus, como o da maior mortalidade de mulheres por enfarto após maior participação no mercado de trabalho.

Claro que o senso comum que diz “elas não queriam direitos iguais? tá aí!”, finge não ver que os direitos ganhos não superaram o acúmulo  do novo papel advindo dos direitos com o velho papel nunca superado do macho-paxá incompetente que não lava louça ou se responsabiliza pela participação com culhões no trato com os filhos, ou seja, as moças seguram as pontas em duas frentes e a macharada ainda diz besteira. Fora que dói nos ovos o “elas não queriam direitos iguais? Tá aí!” porque pra mim direitos iguais deveriam ser norma, a diferença, a casta, é tolice de pau pequeno.

É nesse mundo que o “bicho bem bolado” resistente que só, inteiro, digno, se lambuza em ainda nos presentear vidas, artes, lições. É neste mundo de papéis rígidos, rosas, para mulheres e direitos amplos e liberdades totais, plenas, ao ponto de ter defesa prévia em caso da ignomínia do estupro, pro macho adulto, branco, que veste azul, que as fêmeas, por vezes chamadas de feminazis, nos dão o baile de produzirem Rosas, Joyces, Simones, Elis, Cássias, Fridas.

Em uma metáfora ruim: Elas nadam com camisas de força.

Filho que sou de Logunedé com Oxum resolvi escrever após ouvir uma inspirada Maria Bethânia cantando “As Yabás”, onde várias facetas do divino feminino são cantadas através das Deusas Iorubás: Obá, a guerreira forte, masculinizada, que “não tem homem que enfrente”; Euá, a “menina bonita” e virgem que não tem medo de nada; Iansã a guerreira que comanda os ventos, uma menina bonita sem principio ou fim e Oxum, minha  mãe, a mãe, a beleza, o rio.

Ouvi também “As Minhas Meninas” de Chico Buarque onde a longa educação do “macho protetor” é dita com sensibilidade que não o torna um ditador, onde “As meninas são minhas só minhas na minha ilusão” e no entanto “ E a solidão maltratar as meninas, As minhas não”.

Tudo isso gerou esse post imenso. Porque foram “As Minhas Meninas” que junto com um velho ogro, me tornaram o que sou. Foram elas, que me pertencem sem meu domínio, a quem pertenço, qual pertenço às deusas de minha fé, que  me fizeram irmão, amigo, amante, namorado, noivo, filho. E a cada minuto desses tendo de obrigatoriamente superar as  imposições que tornavam cada menina algo menor, desumanizado, ínfimo, parco, calado.

Os ogros tem camadas, e os velhos ogros sabem disso. O maior legado dos ogros é não ver nem dizer as biscates assim, como menos, como parte, como gueto, como sem alma.

Tantas as biscates são, tanto quanto as deusas, de tantos tipos, tantas são estas “Minhas Meninas”, com tantos rostos, formas, deslizes, acertos, risos, gritos, ódios. Como torna-las apenas mães? Como torná-las “devoradoras de homens”? Como dividi-las em “pra comer” ou “pra casar”? Cabe “pra amar”?

E “homens” somos só “homens”? Não somos grandes, pequenos, gordos, bobos, ogros, falsos, mortos, vivos, fogo, água? Somos pedras encaixadas ou seres?

Somos, antes de mais nada, um bicho bem bolado.

.

*Gilson Moura Henrique Junior é um ogro intolerante com altas doses de doçura, carioca, tricolor, da extrema esquerda incendiária que se define como “um malaco de classe poetizando respingos” e que veio a esse mundo para enfiar o dedo na ferida alheia. Quer conhecê-lo melhor (por sua conta e risco)? Ele escreve o blog Na Transversal do Tempo e você pode achá-lo no tuíter @redcrazydog.

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"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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12 respostas para Um Bicho Bem Bolado

  1. gilsonmhjr disse:

    mea culpa, mea máxima culpa.

  2. Adorei. Mas fiquei sem entender quem somos o bicho bem bolado: homens, ou homens e mulheres? (ou ainda só mulheres?) E bolado como? Bem bolado de bem pensado? Ou bem bolado estilo carioca “tô bolado com isso”, com a pulga atrás da orelha?

    Ih, viajei.

    • Acho que tudo isso, baby, e também ao contrário, rs. Acho que a idéia é justamente de ir discutindo e incluindo, néam? Mulheres, sim, desde o ponto de vista de quem as olha/vê, mas também o homem que olha/vê de algum lugar discursivo. E bem planejado, bem elaborado, mas que também é uma interrogação, uma pergunta permanente.

      • gilsonmhjr disse:

        Bem bolado ai é bem feito, nem pensado. E A mulher é um bicho bem bolado.. só que no fim eu passo a achar que o humano é bem bolado tb.

  3. Clara Gurgel disse:

    Uau, Gilson!! Sensacional! Não é a toa que virastes “noivo da Lú!” Parabéns!!

  4. gilsonmhjr disse:

    O bem bolado ai é no sentido de bem planejado, bem sacado e desenvolvido. E de inicio o bicho bem bolado é a mulher, mas quem sabe também não é o genero humano?

  5. gilsonmhjr disse:

    Clara, na verdade eu estava de bobeira no Pântano e fui capturado por borboletas invasoras, sequestrado mesmo, mas peguei síndrome de Estocolmo e agora não quero ir mais embora..

  6. gilsonmhjr disse:

    Tem a questão do ponto de vista mesmo que a Lu colocou. Não quis em momento algum tentar falar sob a perspectiva feminina ou algo neste sentido. E por isso escolhi um termo advindo de uma expressão de um delegado de polícia em frente a uma delegacia nos anos 1970 e lembrados volta e meia pelo meu falecido pai, ou seja, tinha tudo pra ser o treco mais machista possível. Peguei-o exatamente pela lógica inversa, tentar trazê-lo, já que o quadro me era divertido, o quadro todo pra mim trazia uma carga de humor e o “Mulher é um bicho bem bolado” me fazia rir e era tentadora a desconstrução desse machismo nele. Ressignificando o uso do “Bicho Bem Bolado”.

    Não dá pra partir disso e virar Chico Buarque, até pela falta de talento, mas dá pra falar da perspectiva masculina que se pretende anti-machista ressignificando o machismo da frase original. Ai eu fui trabalhando o termo e a expressão dentro do próprio texto pra tirar o machismo dela e no fim tentar até tirar o gênero dela.

  7. Amanda disse:

    Bem bolado, Gilson! Acho lindo homem que se liberta e consegue ver mulheres com estes olhos. 🙂 abraços!

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