Biscateen

Esta era uma biscate adolescente. Biscatinha discreta, secretamente, estrategicamente não ficava com quem se conhecesse – sabem que na adolescência o medo de ser julgada é grande, mesmo entre biscates. Medo dos pais. Medo de engravidar. Medo, medo, medo. É claro, há outras coisas lindas e deliciosas, mas o medo está sempre lá. Ela porém não queria mostrar que era adolescente como toda outra adolescente.

Biscateen, vamos chamá-la. Ela ouvia as colegas, que um dia haveriam de ser amigas, talvez muitos anos mais tarde. Experiência zero. Era ela a primeira. Primeira a transar, a ficar com mulheres, a ter um trabalho, viajar sozinha, enfim. Como tantas outras Biscateens, chegara até os 15 lendo muita revista Capricho, numa época em que a internet não era lá muito disseminada e que não havia grandes e fáceis fontes de informação e espaços online para troca.

A revista Capricho dessa geração de Biscateens, porém, era outra. Moda e homens tinham algum espaço mas não muito. Havia séries de reportagens ensinando a fazer coisas diferentes, incentivando incursões em novas experiências. Havia matérias sobre drogas, aborto, sexo, sempre num tom não moralista (mas tampouco antimoralista, afinal de contas) que não se vê mais em qualquer mídia que dialogue com adolescentes. Talvez estejamos num momento de muito backlash. Vai saber.

Bem, pois mesmo no tom possível e não moralista da época, uma preocupação rondava a cabeça desta e das demais Biscateens: serem “usadas”.

Quem nunca ouviu, usou ou pensou nessa expressão, “ser usada” por alguém? Via de regra, significava que alguém “brincaria” com seus pobres coraçõezinhos femininos, românticos, inocentes. A sexualidade adolescente, para muita gente por aí, é uma mera curiosidade e nada tem de autonomia. Que erro.

Pois a Biscateen resolvia esse impasse é com um belo de um “foda-se”, recusando o papel constante de bestinha apaixonada. Protegendo-se decidia, então, era “usar” as demais pessoas também. Afinal, entrar com essa consciência toda na sexualidade lhe permitia inclusive mais liberdade. A obrigação da paixão, sentia ela, era uma prisão sexual. Um limite a mais, do qual ela não fazia questão nenhuma.

Pois a Biscateen cresceu e aprendeu mais tarde a se apaixonar com alguma segurança. Sempre, porém, com muito pouca ingenuidade. Ingenuidade, aliás, na qual não acredita partindo de qualquer ser humano que seja, até hoje. Muito menos sobre a própria sexualidade.

Sobre Marília Moscou

socióloga, escritora, poeta, comunista, feminista, bissexual, não-monogâmica (ou anti-monogamia?)
Esse post foi publicado em memória biscate, uma biscate quer e marcado , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para Biscateen

  1. Renata Lima disse:

    Era mesmo. Capricho e até Atrevida, há anos, eram revistas bacanas, com matérias diversificadas e tratavam de temas “sérios” e “polêmicos”.
    Assim tb era a Marie Claire, que tinha altas reportagens ótimas…
    Backlash? Vai saber, mas não tá bom não.
    Ainda bem que a gente tem o Biscates, e tb as Sextas de Nova no Groselha News!!
    Beijos, Biscateen!!

  2. Belo texto miúda Maria Moscou, belíssimo, eu diria. 😉
    Beijos…

  3. o q se passa com o marilia, já sei, teria sido pq pus acento no 1° i ?

  4. me referi ao mariliamoscou.com…

  5. izabuzettiI disse:

    De fato crescemos com esse pavor de “sermos usadas” e toda a pressão dos olhos juizes da sociedade…
    é muito complicada essa transição de “menina para mulher”, primeiramente porque poucas vezes as meninas são orientadas a respeito de seu corpo, e o quanto ele pode proporcionar prazer a ela, e depois, que quando elas descobrem isso tem que se enfrentar com as pessoas que a julgam por sentir prazer…

    O jeito é se conhecer, se amar e mandar “a sociedade” para o lugar que ela pertence 😛

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