A cena mais biscate do cinema

São inúmeras as cenas do cinema que poderíamos classificar como biscates, mas nenhuma é tão ousada quanto a cena em que a feminista Louise Bryant intima o jornalista John Reed a transar com ela no filme Reds, de Warren Beatty.

Louise (Diane Keaton), tirando o casaco na cena mais biscate do cinema

Reds, de 1981, é a cinebiografia do jornalista norte-americano John “Jack” Silas Reed (Warren Beatty), desde a época em que era repórter do periódico socialista The Masses no início do século XX, até a fundação do Partido Comunista dos Estados Unidos, incluindo sua vida amorosa com Louise Bryant (Diane Keaton). Beatty usou o recurso de depoimentos de pessoas que conviveram com o casal, todos bem velhinhos, dando detalhes de suas personalidades e como eram vistos. E chama a atenção num dos depoimentos antes de começar o filme propriamente dito que Louise é classificada como “exibicionista”, o que também aparece num diálogo da personagem com o marido.

Louise Bryant, em 1912

É final de 1914 em Portland, cidade natal de Reed. Louise está numa exposição fotográfica com o marido para a qual tinha posado nua em algumas fotos. O marido só soube das fotos durante a vernissage, na frente dos amigos do casal e embora eles tivessem um acordo no casamento em que ela poderia ter liberdade para exercer suas atividades como jornalista e sair sozinha — algo raro em qualquer casamento no início do século XX — esse acordo era particular e não ficaria bem ela expor o marido daquela forma. (Eu achei lindo!)

Conforme Louise havia planejado, ela sai da vernissage e vai a uma reunião no Clube Liberal, onde Jack Reed estará presente para falar sobre a Guerra na Europa — de onde ele acaba de retornar –, ele está na cidade para rever sua mãe, e Louise é sua fã e leitora. Ela fica impressionadíssima com o discurso dele — ou melhor, o não-discurso — sobre a guerra, o aborda após a reunião, pede para entrevistá-lo e o leva até um pequeno apartamento que usava como estúdio.

Louise abordando Jack e pedindo para entrevistá-lo

Lá ele vê as fotos dela (as do nu artístico) que estão emolduradas. Logo no início da conversa ela pergunta se ele realmente não é casado como comentam e ele diz que não acredita em matrimônio. Jack lhe devolve a pergunta e ela responde: “Matriônio? Quem pode crer no matrimônio?” e muda de assunto. A essas alturas Jack, por mais liberal que fosse, já tinha formulado um conceito sobre Louise.

Ele fala por horas a fio enquanto tomam café e ela anota tudo o que ele diz. Durante a entrevista ele argumenta de forma lógica, como é próprio dos esquerdistas, sobre o porquê da guerra, da opressão das mulheres, da exploração de classe, sobre o público leitor de seu periódico e da dificuldade de conseguir financiar a impressão. Até que ele percebe que ela está cansada, ele senta a seu lado no sofá e ela propõe que eles avancem um passo. Ele diz sim e ela colocando as pernas sobre o sofá lhe diz: “O que te pareceria se te pedisse para fazer algo um pouco egoísta?” — Ele sorri e responde: “Pois deveria”, já se animando. Ela então se vira e pega uma pasta ao lado do sofá (enquanto ele se inclina sobre ela e fica no ar, no vácuo) e pede que ele leia os seus artigos e opine honestamente sobre eles. Levanta, pega o casaco dele e o manda embora (são 6h da manhã), enquanto ele tenta sem sucesso marcar um outro encontro antes de voltar para Nova York. Ele vai embora, atônito, impressionado com ela.

Na noite seguinte eles se encontram casualmente (esse acasos que só acontecem quando a gente se apaixona, ou quando esses acasos influenciam nos fazendo apaixonar? enfim…) num jantar familiar, onde ela está de novo desacompanhada do marido, eles fingem que não se conhecem, são apresentados e ele descobre que ela é casada. Entre olhares e cochichos ele debocha pelo fato dela ser casada e da profissão de seu marido e passam o jantar inteiro flertando e tentando ser discretos.


(esse vídeo sem legendas é apenas da cena biscate que cito, que está exatamente entre 15:47 min e 16:38 min do filme)

Ao final do jantar, Jack vai acompanhar Louise até em casa e conforme vão caminhando entram numa espécie de bosque ao lado da casa onde estavam. Ele diz a ela: “Não ia deixar você ir sem te acompanhar, Louise. Diga-me uma coisa. O  Dr. Trullinger (o marido) não se importa que passe tanto tempo no estúdio?”

Ela responde: “Tem que me dar um pouco de liberdade!” — Jack a retruca: “Liberdade, Sra. Trullinger?” (insinuando que mulheres casadas, sob a tutela e sobrenome de um homem não são livres), ele passa a frente dela caminhando e segue falando: “Eu gostaria de saber qual a sua ideia de liberdade. Ter estúdio próprio? Caminhar…?”

Ele então percebe que ela parou de caminhar e se volta para trás. Louise está tirando seu casaco (foto maior, acima), ela se abaixa, ajeita o casaco no chão, se ajoelha sobre ele, olha para Jack e diz: “Eu gostaria de vê-lo sem calças, Sr. Reed.”

Ele fica nitidamente zonzo, olha para os lados, faz menção de abrir o botão das calças, titubeia, ajeita a roupa, olha de novo para ela, sem saber o que fazer, se aproxima, se abaixa, a olha fixamente, sorri encantado e totalmente seduzido, tira o chapéu, a beija e eles transam ali, no bosque.

Infelizmente a cena termina no beijo e o filme continua já na manhã seguinte no estúdio de Louise, com Jack feliz cantando enquanto se barbeia e ela está arrumando suas coisas para sair e se despede dele friamente Em seguida eles discutem na escada do prédio sobre a ida dela com ele para NY e eu poderia contar o resto do filme (que tem 3h de duração) apenas de memória, mas daqui para frente se quiserem saber ou lembrar o que acontece, terão de assistir ou rever o filme.

Jack e Louise, em novembro de 1916

Jack e Louise se casaram em novembro de 1916, após o envolvimento dela com o escritor Eugene O’Neill (no filme interpretado por Jack Nicholson) em Provincetown, no litoral de Massachusetts, em meio ao relacionamento com Reed, onde os três e mais outros amigos dividiram uma casa durante o verão.

Louise Bryant é quase sempre vista apenas como a sombra de Jack Reed, o grande jornalista comunista americano, que sempre foi tratado como espécie de herói na União Soviética. O filme também passa a ideia de uma jornalista e escritora não muito capaz e uma feminista intimidada pelas demais feministas amigas de Reed, principalmente Emma Goldman. Mas basta saber um pouco mais da história dos dois para perceber que Louise era ousada, uma mulher anos luz a frente de seu tempo, guiada pelos seus desejos, vontade e coração, e que não poderia ser nem retraída e nem sem conteúdo. Muito pelo contrário.

Quando Jack morreu (de tifo aos 44 anos, em Moscou, 1920), Louise escreveu ao amigo Max Eastman: “Eu não tenho coragem para pensar o que vai ser sem ele. Nunca amei realmente qualquer outro no mundo inteiro como a Jack e nós estávamos terrivelmente ligados… Ninguém em momento algum esteve tão só quanto estou. Agora eu perdi tudo.”

Louise tomando sol em Provincetown, 1916

Louise continuou seu trabalho como jornalista, publicou o livro Espelhos de Moscou em 1923 e diversas entrevistas com personalidades como Benito Mussolini e Enver Paxá. Em 1924 ela se casou de novo e se mudou para Paris. O casamento acabou quando seu marido descobriu que ela tinha um caso com o escultor Gwen Le Gallienne. Em 1928 desenvolveu Adipose Dolorosa (ou Doença de Dercum) e recorreu ao uso de álcool e drogas para suportar as dores. Morreu em Sèvres em janeiro de 1936 aos 50 anos de hemorragia cerebral, consequência de um tombo nas escadarias do Hotel Libéria (Paris).

Difícil dizer se Louise era biscate porque era feminista ou era feminista para justificar filosoficamente a sua biscatice, ou afirmar se a cena protagonizada por Diane Keaton aconteceu exatamente assim ou foi fruto da imaginação de Warren Beatty e Trevor Griffiths, roteiristas do filme. Mas é bem facinho se apaixonar pelo filme, pela Louise Bryant de Keaton nesse romance vermelho e nessa cena biscatésima. Né?

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Warren Beatty produziu, dirigiu e protagonizou Reds. Baseado na vida de John Reed e em seu relato (o mais fiel) da Revolução Russa, “Dez Dias Que Abalaram O Mundo”. Levou dois anos entre filmagem e montagem e conta ainda com Gene Hackman, Mureen Stapleton e Paul Sorvino no elenco. Recebeu treze indicações ao Oscar e levou três estatuetas, incluindo Melhor Diretor para Beatty.

Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.
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10 respostas para A cena mais biscate do cinema

  1. Gilson disse:

    Muito foda.. vou rever o filme.

  2. Diógenes Ferreira disse:

    Bom o texto… com vontade de ver o filme também!!! Algumas biscate afim???

  3. Renata Lins disse:

    Nossa, não lembro dessa cena, que maravilhosa…. fiquei com vontade de rever tb…. esse é daqueles bons de ver no cinema, mas dada a falta absoluta de cineclubes nessa cidade de meu deus, vai ser video mesmo.
    Demais!

  4. Êba! Todo mundo revendo Reds. ♥

  5. Pingback: No Escurinho |

  6. Eu ainda não conhecia o filme, mas depois da sua descrição, não registi! Já tô baixando!!! Obrigada pela dica ;D
    [linda leitura de uma biscate e tanto!]

  7. Ni, vc viu que o video foi retirado? “pelo usuário”? 😦

    • Valeu pelo aviso, Rê. Deu o maior trabalhão, tive eu mesma que editar na edição baixada que tenho do filme, e subir no youtube só o recorte da cena de pouco menos de um minuto. 😉

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