Coxinha e Pão de Queijo

Por Mari Biddle, nossa Biscate Convidada*

Na minha recente viagem ao Brasil, um primo reclamou para mim do outro primo-coxinha que, está o tempo todo implicando pelo fato dele usar brinco. Que a todo momento quando o vê pergunta – E aí, não vai tirar esse brinco? Você acha que vai poder usar brinco em corte? (primo vai se tornar advogado em poucos meses).

Eu tenho primo coxinha, você tem primo coxinha, todos tem ou irão ter um primo coxinha (ficou com fome de saber o que é? leia aqui). Mas o que eu queria dizer é que contei minha história de vida para o primo-do-brinco  na tentativa de deixar o bichinho melhorzinho. Fiz um resumão, claro, que sou uma biscate rodada e são necessários tempo e muitos copos de vinho para eu dar conta. Meu primo-do-brinco acha que a vida dele fica bem mais difícil com o outro primo chatérrimo pegando no pé. Eu concordo. Mas sabe o que é mais chato, muito mais chato do que isso? É pertencer à mesma família e ter entrado no mundo da biscatagem ainda mocinha.

Ser biscate no interior do Brasil, nos anos 80/90, é só para as fortes. Quem dera tivessem implicando somente com meus brincos. O negócio é que nasci com vagina e não dei moral para os decretos machistas que ouvia na época da juventude. –  Em mulher pega tudo, em homem não pega nada. – Se porte como menina direita! – Eu não dei ouvidos e fui pegando tudo. Ou todos. Não fugi ao clichê e peguei menino atrás da igreja, sim. Não entendia porque meninos podiam tudo e meninas não podiam nada. Mães dizendo para prender suas éguas que meus cavalos estão a solta. Ah, mães tão cheias de classe, né? Claro, eram mães só de meninos. E eu pensando que seria muito mais simples ensinar mocinhos e mocinhas a encapar antes de usar e só.

Era muito chato ser biscatinha no interior, mas eu não me ative ao falatório. Eu fui feliz. Passava as férias lá sendo ‘a moça da cidade, aquela filha do fulano que não vale nada’. Sei que os meninos que peguei, muitos devem ter ‘jogado meu nome na lama’, contado vantagem, falado ‘mal’ de mim. Se fiz a fama, deitei na cama. O primo não entende que difícil mesmo é ser biscate no interior.

Daí que agora eu moro no exterior e os faladores me colocaram noutra categoria. A biscate tem rótulos que não acabam mais. Como me casei, entrei na categoria ‘ex caçadora de gringo, louca por um green card, etc’ – Ser biscate nos EUA tem sido mais simples. Até ir ao SlutWalk eu fui. Fui ver o que as biscates daqui tinham. Fuço daqui e dali e percebo que estamos todas no mesmo barco. E vou levando. Tem biscates expatriadas que gostam de cozinhar. Eu sou uma delas. A gente sente saudades. Fuça lojas para descobrir temperos brasileiros, faz amizades com mulheres maravilhosas que nos ensinam como fazer determinadas receitas.

Trouxe pra biscatear com vocês uma receita que veio de outra expatriada. Se você é mineira, mora no Brasil e faz pão de queijo de olhos fechados, essa receita não serve para você. Só funciona se você mora fora e tem que se virar sem o queijo ralado que está a venda em qualquer esquina do Brasil.

Faça a receita, puxe a cadeira e me chame no Skype. As impressões de ser biscate no Brasil ou no exterior mudam, óbvio, de pessoa para pessoa e essa é a minha. Então, vamos à Receita Pinduca de Pão de Queijo. Primeiro, as medidas (não as minhs, que são ótimas e ainda causam impressão na praia):

5 copos de Polvilho Doce-Azedo, 2 copos de leite, 1 copo de óleo, 5 copos de queijo mussarela, 1 colher de sal e 3 a 4 ovos.

Aí, faz assim: coloque o polvilho em uma bacia – com jeitinho, com jeitinho. Misture leite, óleo e sal, biscate ama diversidade e misturas imprevistas, esquente um pouco as coisas: ferva tudo junto. Tá quente? Bem quente? Despeje a mistura em cima do polvilho doce pra escaldar a massa. Mexe, mexe, com uma colher de pau. Deixe esfriar (oh, yes, altos e baixos, vai e vem, o movimento é sexy). Após esfriar, misture o queijo mussarela ralado. O resto é fácil – mais fácil, eu deveria dizer – acrescenta os ovos, um a um, sovando a massa até que ela fique mole e grudando nas mãos – a massa, a massa. Deixa tudo na geladeira por uns 40 (quarenta) minutos – dê tempo ao tempo, uma biscate aprende – o período na geladeira vai ajudar a enrolar tudo depois. Aí, faz as bolinhas – não esqueça de untar as mãos com óleo. Uma dica: quanto mais mole você quiser a massa, mais ovos deve usar. Prontinho: deixe assar de 12 a 15 minutos e depois use a boca…pra comer, claro.

*Mari Biddle é cientista Social, com um xodó por Antropologia, Cinema e Literatura e louca por sushi. Mais? Feminista, atéia e atualmente monógama. Vive no aumentativo: lindona, mãezona e amigona. Tem um blog: Corpo Indisciplinado onde usa as vírgulas e o humor como quer.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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7 respostas para Coxinha e Pão de Queijo

  1. Beto Mafra disse:

    Ih!
    Eu sofistiquei essaí pra gosto mineiro.
    Ralo queijo parmesão pra dar um sabor mais rançoso pra mozzarela.
    E vô colocando o leite até dar liga, antes de virar pasta grudosa.
    Funfa, visse?

  2. Carla (do Baianices) disse:

    Mari, adorei seu pao de queijo, mas gostei mesmo foi dessa historia de ser biscate no interior. Minha mae me catou e me levou pra capital antes que eu ficasse falada, mas o que ela nao sabia e’ que la, na capital, tinha muito mais material. E fui feliz.

    • Mari Biddle disse:

      Ahahaha!
      Tão naive essa sua mãezinha!
      Eu tinha de voltar ao interior já que deixei pai e mãe lá e fui estudar na casa de tias na capital. Além de biscate ainda se referiam a esse tipo de gente como ‘metida’.

      bjkas

  3. Mari Andrade disse:

    Também fui biscati de interior!
    Era preciso dar nó em pingo d’água pra biscatagi não chegar nos ouvidos da família.
    Peguei meninos atrás do salão paroquial, nos cantos escuros da pracinha da igreja e atrás do muro da escola. Ahahahahaha
    Tinha uma amiga que foi proibida de sair comigo porque ia “ficar falada”.
    Ah, adoro pão de queijo!
    Bjusss

    • Mari Biddle disse:

      Mari,

      posso te dizer quase com toda certeza que muito pai de familia não gostou, ou proibia suas queridinhas de sair comigo. Uma vez eu estava cochichando no ouvido de uma mocinha e a mãe me olhou de cara feia e queria saber o teor da conversa. É como se eu já fosse estragada só por ter ido morar fora e beijar na boca de quem eu queria.

      bjkas, xará

  4. Glorinha disse:

    É mesmo uma linda, né?! Pense numa biscate que eu dou valor até umas “zoras”. kkkkkk Bote sua mola, amiga, que eu qualifico e seu pãozinho de queijo então…

    Beijo enorme!

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