Devoradora de Homens

Por Sandro Caldas*

Brigitte Bardot continua sendo uma das minha musas no cinema desde que a vi pela primeira vez em ‘E Deus Criou a Mulher’ (1956), de Roger Vadim. Logo depois, com ‘O Desprezo’ (1963), de Jean-Luc Godard, estabelecia-se em mim a devoção. Se tivesse que escolher um motivo para nascer nos anos 60, seria Bardot. Supérfluo? Tudo bem, Oscar Wilde me defenderia: A única coisa necessária é o supérfluo. No auge de sua beleza, ela exibia 1m,68cm de altura, 57 quilos, 50 cm de cintura, 90 cm de busto e 89 de quadril. Além do delicioso sotaque francês e do famoso biquinho, a atriz francesa era uma biscate de primeira.

Livre em sua sensualidade felina, Brigitte emanava magnetismo sexual, atração que moralismo nenhum podia conter ou frear. Todos os homens que colocaram os olhos nas curvas de Brigitte queriam devorá-la. E ela deixou-se devorar por todos que quis. Teve tantos que a mídia preconceituosa a chamou de devoradora de homens’, tanto pela rapidez como pulverizava seus relacionamentos quanto pelo número de homens que passou pelos seus lençóis. Mas uma mulher provou Briggite. Sua única experiência com o mesmo sexo foi relatada em sua autobiografia ‘Iniciais BB’:

“Odile estava passando pelas fomes amorosas da adolescência. Havia em seu quarto um eterno vai e vem de belos rapazes e de moças também. Fotógrafos e repórteres do ‘Paris Match’ se hospedavam ali, perto da redação e prontos a registrar a aventura que se passava. Era muito engraçado, uma calcinha esquecida ou uma cueca abandonada circulavam às vezes de quarto em quarto, para que não servissem de evidência no caso de alguma eventual crise de ciúme. Odile era muito bela, muito impudica, muito natural, muito selvagem. Ela me ensinou a dançar o cha-cha-cha, tinha 16 anos e eu, 19. Eu a achava maravilhosa porque encarnava tudo que minha educação me impedia de ser verdadeiramente. Eu maldizia meus 3 anos a mais e me achava velha. Ela me achava bela e de tanto ensaiar mais ou menos vestidas, ao som dos ares afro-cubanos, acabamos dançando um cha-cha-cha diferente na cama. Esta foi minha primeira e última experiência do gênero”.

 Je t’aime moi non plus 

Brigitte rompeu essa barreira educacional rígida e se tornou um símbolo sexual, fazendo do seu corpo a primitiva liberdade lasciva, do instinto, do desejo. Popularizou o biquíni usando-o em seus primeiros filmes, nas visitas a Cannes e em muitas fotos de revistas. Foi ícone da moda ao não utilizar meias em seus filmes, além dos vestidos esvoaçantes e decotados; guiou o visual feminino e despertou o tesão masculino. Por tudo que simbolizava, BB foi fonte de inspiração para grandes artistas da música pop, como Bob Dylan, cuja primeira música composta foi feita para ela, Caetano Veloso, Tom Zé, Red Hot Chili Peppers, The Who, Elton John e claro, a erótica ‘Je t’aime moi non plus’, composta para ela por seu amante Serge Gainsbourg.

Brigitte era ninfeta e femme fatale, tinha algo pudico e perverso, revelados por entre seus cabelos loiros despenteados, seus penetrantes olhos escuros e sua boca carnuda. Brigitte soube utilizar sua expressão erótica para conquistar seu lugar no mundo, além do talento que tinha, obviamente. Brigitte era elegante e pornográfica e soube devorar a vida e os homens. Gostava de sexo e com seu corpo e sua personalidade, ela mereceu o sexo. Ou o sexo a mereceu? Ela saciou fantasias, as suas e as de quem a possuiu. Como toda boa biscate merece.

Não me interessa aqui os processos, as tentativas de suicídio, os preconceitos contra negros, homossexuais e imigrantes e um tal rancor que a acompanha há algum tempo. A minha Brigitte Bardot é a que vai dos anos 50 aos 70. É por essa BB que sou apaixonado ainda.

Abaixo, uma homenagem tecida em acróstico por mim…

BB a lápis

Beleza iluminada pelo sopro divino

Rasgo que promoves na normalidade

Irrequieto me deixas com seu mambo

Galgo a passos rápidos a extrema excitação

Insatisfeito eternamente por não tocar-lhe a pele

Tens tudo que desejas em um movimento de quadris

Toca-me com seus olhos e inflama meu desejo

E, sim, és força dominadora disfarçada de angélica

Banhada em sol, torna-te a escuridão das outras

Amar-te apenas no privilégio da ilusão

Regozijo do milagre profano que são seus lábios

Diante do infinito, tu és mais infinita

O caminho que leva a Deus passa pela tua existência

Toda expressão criativa é menor que simplesmente olhar-te

E nós, Biscas-agradecidas, deixamos um mimo pro Sandro (e pra todos que passarem aqui, amantes da sétima arte…

.

* A Bahia tem ziriguidum, charme, malemolência, beleza e um jornalista gente boa, aprendiz inquieto com o comportamento humano, apaixonado por livros, com mão boa pra pintura, que aprecia conversar, de preferência com uma taça de vinho na mão e lembranças cinematográficas na outra. Sandro Caldas escreve no Vinil Digital, vai lá, vai.

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"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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3 respostas para Devoradora de Homens

  1. Vanessa Prates disse:

    Texto gostoso demais ❤

  2. por falar em acrósticos, BB = Bela Biscate

  3. Sandro Caldas disse:

    Oi, pessoal! Adorei a experiência de ter escrito para o Biscate Social Club! Adorei também o mimo e toda a atenção de vocês! Estou sempre pronto para colaborar! Beijosssss!

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