M.I.A e o dedo do meio guerrilheiro

Por Fabiana Nascimento*, nossa Biscate Convidada

Live fast, die Young/ 
Bad girls do it well
(Viva rapidamente, morra jovem
/As garotas más fazem direito)

Olá, Status Quo, aqui pra você!

No dia 05 de fevereiro de 2012, no intervalo do evento esportivo mais assistido dos Estados Unidos, o Superbowl (ironicamente chamado de campeonato mundial de futebol, o americano, um esporte idolatrado em massa apenas por uma nação do mundo) no show da Madonna, um ícone da música pop estadunidense, da liberdade e da biscatinagem feminina,  M.I.A (lê-se eme ai ei) rouba a cena apontando o dedo do meio para a câmera e falando um palavrão “I don´t give a shit”, algo como, eu não ligo a mínima, com o palavrão shit, merda soa ofensivo para os padrões da TV aberta americana. A mensagem foi clara: toda essa parafernália, toda essa infra estrutura estrambótica não valem mais nada. O mundo se sentiu representado por ela, porque uma grande parcela do planeta está andando e cagando pro que pensam ou fazem os estadounidenses.

Não se trata aqui de antiamericanismo besta, infantil, de ser contra por birra – afinal M.I.A aceitou o convite de ser cheerleader da Madonna – e qual biscate do mundo não aceitaria? Não é um desprezo à cultura que nos deu o pop e outras manifestações que fornecem meios e armas de expressão artística para os jovens, não tem como negar que hoje o hip-hop é uma arma política de ação efetiva, assim como foi, e ainda é, o punk. Ambas criações anglo-saxãs que se tornaram expressões mundiais.

Estamos falando de um ato de guerrilha, pontual, de se infiltrar no território e agir de forma a implodir com os pilares do conformismo. Duvida que o dedo do meio tenha provocado um falatório, ao menos no mundo restrito da internet? É só dar uma volta pelos comentários dos vídeos da M.I.A no youtube e ler o tamanho da indignação dos americanos com tal gesto e quanto os comentaristas do resto do mundo falam que ela foi certeira. Um artigo do Guardian, fala mais ou menos o que penso, os fãs dela não se espantaram com o gesto, mas com o fato de ela estar nessa apresentação (clique aqui e leia mais).

M.I.A caminha pra ser um ícone da música pop, por usar a sua música como manifestação política de denúncia, por trazer visibilidade para as populações esquecidas do mundo, refugiados, guerrilheiros.  Você que leu até aqui deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com biscatagem? Tudo, quem disse que biscatear não é um ato político? M.I.A leva isso as últimas consequências, botando todo mundo pra rebolar. Porque a revolução virá, também, do rebolado.

Essas idéias combativas surgiram de uma história de vida digna de um roteiro de um filme de Hollywood, cheio de reviravoltas e superação. Nascida na Inglaterra, Mathangi Arulpragasam, chamada de “Maya” em 1975, filha de um engenheiro ativista cingalês da etnia tâmil, que brigava pela independência no Sirilanka e de uma costureira.  Quando Maya tinha 6 meses,  sua família voltou para o Siri Lanka, e seu pai tornou-se um guerrilheiro, eles se tornaram refugiados. E, de acampamento em acampamento, a mãe de Maya conseguiu levar a família novamente para Londres. Crescendo assim em meio a uma guerra civil, sob os escombros das injustiças, criança no meio de bombas, desenvolveu uma sensibilidade artística que capta sempre a visão do oprimido em seus trabalhos.

Entrou na escola de  Cinema do famoso Central Saint Martins College of Art and Design, em Londres, transformou-se numa conceituada artista plástica tendo por companheira Justine Fishman  (ícone feminino Brith Pop, isso é tema para um outro texto), que incentivou Maya a entrar no mundo da música.

capa do single The Bitch Dont Work, concebido por M.I.A

Adotou o codinome artístico de M.I.A, uma sigla que significa  Missing in Action, desaparecida em combate, acentuando as características combativas de sua obra. Seu primeiro trabalho buscou na cultura de rua dos imigrantes de Londres inspiração para fazer uma música dançante e de conteúdo social para o mundo contemporâneo. Antes mesmo do lançamento do primeiro álbum trouxe novas perspectivas para a dance music londrina. Seu primeiro álbum, Arular (nomeado em homenagem ao pai guerrilheiro) de 2004, traz referência às batidas do funk carioca.

(Bucky Done Gun, M.I.A descendo até o chão na batida do funk carioca)

No álbum posterior, Kala (o nome de sua mãe), M.I.A recolheu histórias de conflitos ao redor do mundo e falou de maneira crua do terrorismo, por isso o álbum foi censurado nos EUA. E como o álbum anterior, foi mundialmente reconhecido pelo público e pela crítica especializada.  Ganhando indicações para o Grammy com a música Paper Planes, um libelo de denúncia ao tratamento dado aos imigrantes ilegais. E para o Oscar com “O. .. Saya” uma canção composta para o filme Quem quer ser um milhonário?

(Na música Boyz de 2007 M.I.A requebra com a dança do kuduro de Angola)

No álbum /\/\/\Y/\  de 2009, continuou combativa falando de sexo, e bombas, Lovealot. No entanto foi criticada por banalizar a violência e o terrorismo e por supostamente ser ingênua e politicamente vazia. Comprou briga com uma jornalista do NY Times, que em um perfil retratou a cantora como uma rica fútil, que só fala de política para aparecer nos meios de comunicação. Nessa briga M.I.A conseguiu que o jornal publicasse uma retratação, pois o texto da entrevista descontextualizava suas declarações, invertendo a ordem de suas falas, construindo uma imagem imprecisa da cantora.

Desse álbum M.I.A lançou um dos mais impressionantes videoclipes de todos os tempos – isso não é apenas opinião de uma fã, heim. O vídeo para o single Born Free traz uma mensagem simples; o fascismo ainda existe, a repressão a grupos dissidentes, de qualquer parte do mundo, é violenta e sangrenta.

(Born Free, nascer livre, uma verdade esquecida no mundo contemporâneo.)

Esperamos mais ataques à caretice do mundo, que os combates dessa biscate ganhem cada vez mais as mentes das multidões de conformados. Porque, como ela diz no último lançamento, mais uma vez com um vídeo de perder o fôlego, filmado nas areias do Marrocos: Live fast, die Young/  Bad girls do it well (Viva rapidamente, morra jovem /As garotas más fazem direito).

Bad Girl das causas certas.

.

* Fabiana Nascimento é nossa convidada que confirma a diversidade: biscate-tímida. Historiadora, feminista, indignada e preocupada com o mundo, ativa militante virtual. Inteligente e articulada, vai com a gente, sambando na cara da sociedade que anseia pela padronização.

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11 respostas para M.I.A e o dedo do meio guerrilheiro

  1. =D

    Delícia ver um texto tão bom sobre a M.I.A. e no fim descobrir que é da Fabiana! Eu também fiquei meio assim assim com esse negócio, como ela foi aceitar ir no superbowl? Claro, é a Madonna, como recusar?

    Meninas, o blog está demais, lindo, enorme e tudo o que uma biscate precisa. To adorando.

  2. Beto Mafra disse:

    Fabiana coloca tudo no lugar, sem medo, igualzinho à M.I.A..
    Afinal, biscatage é POLÍTICA.
    Sem assumirmos nosso papel diante da sociedade que compomos, ela permanece amorfa, destinada ao usufruto dos que dela sugam a riqueza.
    Fabiana tem um fã.

  3. Nem conhecia…e ainda não conheço…depois do texto, me interessei

  4. Ana disse:

    Bom texto, mas… o punk não é originalmente britânico?

  5. . Não, punk surgiu nos EUA, no início dos anos 70, depois ganhou o mundo. Aliás, Iggy Pop e MC5, por exemplo, são considerados percussores do movimento já estavam na ativa nos anos 60 nos Estados Unidos. Está associado à filosofia do D.I.Y (do it yourself, faça você mesmo), por isso ganhou o mundo rapidamente, onde havia energia e instrumentos musicais, começou a surgir bandas. Obteve sucesso comercial com as bandas inglesas, principalmente os Sex Pistols no fim dos anos 70, por isso associamos o punk ao rock inglês. A M.I.A diz que o tipo de música que ela faz é herdeiro direto dessa filosofia do faça você mesmo. A música eletrônica abriu fronteiras pra expressão popular de um jeito inédito na história humana, porque o que se iniciou com o punk – demandava algum recurso financeiro (instrumentos, amplificadores etc), hoje faz-se de modo muito barato. Se pensarmos na difusão disso tudo então, não há parâmetros de comparação

    • Fabi, o punk como música pode ter surgido nos EUA, mas como movimento cultural acho que foi na Inglaterra. Eram filhos de operários que revolucionaram a estética/moda usando artefatos e objetos advindos do lixo, por exemplo. Era uma atitude de protesto contra a onda de desemprego que as pequenas cidades industriais da Ingaterra viviam…

      • Fabiana Nascimento disse:

        Oi Lu, deixa o texto assim mesmo tá bom. Mas discordo do que você disse no comentário. O punk surgiu nas cidades operárias, como Detroit. Bandas como o MC5 eram politizadas e tal. Como eu disse no comentário acima, na Inglaterra o movimento ganhou a imprensa e a moda (aí é fundamental a participação da Vivienne Westwood que criou essa coisa de usar metais nas vestimentas) por isso atingiu mais gente.

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