Um Encontro

O quarto tem, agora, cheiro de sexo.
E um silêncio que não é perda nem espera:
memória sem saudade.

Edgar Degas

Chove lá fora e isso é tudo que ela sabe do inverno. No corpo, desejo morno. No centro do quarto, sozinha, ela se despe. Tira palavra por palavra: salto, salto – preto, fino. Saia, uma meia, outra. Cada botão, uma letra, em algumas se demora, entre excitada e encabulada, antecipando o sentir que ainda será, o rubor lhe cobrindo o rosto, o colo, a vulva. Todas as palavras se amontoando no chão, o pensamento nu, querer explícito. Até que: pronta. E pensando, em desejos de imediato, já sem pudor: venha.

Ela se deita, nua, sobre os lençóis. Quarto anônimo, perto do aeroporto, pouco tempo, ele disse, ela sabe. Nua, então. Deixa a certeza lhe fazer companhia: o arrepio quando acertaram o como e o quando, o desejo, seco e pontual, a palavra direta. Ficar sem chão, sem fala, sem escolha. Deixar seu corpo ser território a ser percorrido. As pernas em sim e qualquer depois em não. Deixa-se ficar sentindo tudo em antecipações, coleciona memórias: a temperatura muito baixa, o ruído da televisão, o roçar dos bons lençóis na pele sensível. A porta.

Fecha os olhos pra melhor ver seu desejo. Rubro, ela quer em vermelho. Respira, lentamente, sem virar o rosto: conhece a necessária disciplina de uma entrega sem remorso. Escuta: a mala no chão, as mãos, em confusa pressa, abrindo zíper e botões. Ele. Ele e sua fome. De olhos bem fechados ela o adivinha: a barba macia, o corpo cansado, as mãos grandes e mornas, os olhos inquietos, a curva da barriga com aquela maciez imprecisa trazida pela idade, pelos, muitos pelos. Ela o desconhece. E nada sabe de si a não ser isso: seu corpo quer.

Se houvesse forma de contar, seria a primeira vez. Mas, reconhecem, essa é uma conta de trás pra frente e, sendo a primeira, é também última. Sempre tarde demais, eles estão sôfregos de passado. Por isso, uma certa violência: ele primeiro morde seu ombro. Para abrir os olhos, ele diz, ela abre a boca. Beijo. Em distante reconhecimento ela sabe seu corpo em calor. É preciso que eles deixem marcas e ela tem unhas. Costas, ombros, bunda. Ele geme. Dói? Ele não sabe. Ela não sabe. Só sabe o sangue no ventre latejando. Deixam as mãos descobrirem curvas, altos, ocos.

Eles param e se olham, enfim. Desconheciam-se no tanto querer. Não são parecidos com o que esperavam, com o que pensavam um do outro, nem com o que pensavam de si mesmos. Eles riem. Eles querem. Mais rugas e menos palavras do que eles planejavam, ela pensa, mas logo recorda o desejo – é tão fácil com ele! – e se esquece de não querer.

Como a saber de si, prova-lhe a pele: sal e saudade. Eu lambo, ela ri, como se conjuga esse verbo molhado e cheio de vontades? A língua sabe escolher: pescoço, orelha, mamilos, umbigo. Ventre, a língua quer calor. Desaprendendo as palavras, as bocas sabem a suor.

Quem? Ela nunca soube depois. Um e outro, em viagens de exploração, suave, forte, suave, alternam os segredos que guardarão. Brincam de inventar o que não há tempo de se tornar íntimo. Os dedos escrevem gemidos. Ela se preenche inteira dele e é como se todos os vazios fossem um agora. Ele se preenche inteiro dela e é como se todos os agoras fossem um vazio. Se eles soubessem dizer, seria: o desencontro é prazer. Mas não sabem em palavras, então se desencontram em movimento. Ele esfrega o corpo no dela, em arremedos de escrita obscena. É como sempre devia ter sido mesmo sem combinação alguma. Sem ensaio. Sem rascunho. Apenas a idéia: ele bem dentro dela. Certo.

Ela para, ela acelera, uma e outra vez. Ela deixa o corpo saber o que quer e ele quer tudo. Cavalga, firme, o querer dele que é como o dela: agora. O mundo é aquele pedaço de cama. Pela janela as luzes coloridas brincam de tatuar os corpos ariscos. Ele tem fome, pede, procura. Ela se abre, letra, pernas, momento. Olhos: dele, dela. Mergulho. Diz: mais. Mais forte. Mais fundo. Dentro. Mais. Fundo. Forte. Vazio. O gozo vem, fácil, morno, úmido, com gosto de despedida.

É no só-depois que ela repara: bom professor. Ótimo aluno.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
Esse post foi publicado em biscatagi especial, desejos de biscate, memória biscate, uma biscate quer e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

27 respostas para Um Encontro

  1. Beto Mafra disse:

    Li.
    Quando o fôlego voltar eu falo mais.

  2. Clara disse:

    Ai,ai…não é “Um Encontro”, é “O Encontro”!! “…bom professor. Ótimo aluno”

  3. Sueli disse:

    Não faz isso comigo não… Que que eu faço com o furor que esse texto me causou?
    ” é tão fácil com ele!”
    Ai lembranças!

  4. Amanda disse:

    Lubidinosa – é esse o apelido, né? Poucas podem ostentar esse apelido, viu?🙂 Vou falar mais nada…😉

  5. é gentileza de quem usa o apelido e anseio de quem o porta😉

  6. Sara Joker disse:

    Nossa, que texto perfeito! Maravilhoso! Perfeito! Preciso dizer mais?!

  7. Cláudia disse:

    Esse é daqueles textos que causam arrepio. Desses que começam no pescoço e percorrem toda a espinha…
    Lu, genial. Sério. Meus parabéns!

  8. Cláudia disse:

    E além de causarem arrepio… Fazem com que a gente lembre de tanta coisa que viveu. Ou com que a gente tenha vontade de experimentar…

  9. Paula disse:

    Depois dessa acho melhor um banho frio… mas tem que ser bem acompanhada.

  10. Leticia disse:

    Totalmente sem fôlego por aqui tb!!!!

  11. Sueli disse:

    O ouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu tá difícil #biscatenecessitada hehehehe

  12. Sílvia Sales disse:

    É de arrepiar, acelerar os batimentos cardíacos, instigar o desejo. Provocar um gozo e tanto.
    Obrigada pelo texto!😉
    Abreijos,
    sílvia

  13. Silvia Borelli disse:

    Affffffffffff…….

  14. ftiagocosta disse:

    Xeeeeeeeeeentchy! Que texto eih?! Olha, confesso sim, porque sou mó chegado na biscatagi, que me excitei bastante com a descrição da nossa querida Borboleta! Um texto vivo, recheado de sentimentos e sensações que trouxe a tona minhas próprias fantasias. Que horas me levam ao delírio e horas me trazem angústia (não pq tenha me arrependido de querer, de desejar, mas sim por querer e desejar e não ter naquele momento em que se quer e deseja). Enfim! Adorei!

  15. Já mandei o link do post, vamos ver se o aluno aprende😉

    Lindo!

  16. Brunela disse:

    Uauu, biscatagi erótico-poética! Das minhas preferidas…Arrasou! E eu aqui de molho na casa da família, só podendo recorrer ao solitário banho frio…

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