O Pão da Ira

Receita Biscate

esse é o pão que fiz nesta madrugada

Pode parecer oba-oba, mas ser biscate não é fácil. Tem o lado divertido, óbvio, decidimos pela rebelião, pela não-conformismo com a opressão e o triste papel que a sociedade machista nos impõe e todos os seus efeitos colaterais. Optamos pela alegria. Mas matar todas as ofensas sutis e veladas no peito (e haja peito), engolir sapos, desfeitas, desaforos e, principalmente, os enganos é dureza.

Não falo dos nossos enganos, mas dos enganos de pessoa (erro fundamental de pessoa), quando o ser que deveria vir junto com sexo, risadas e poesia, mete os pés pela mão e te trata como biscate naquele sentido pejorativo que combatemos aqui – ou seja, acha que a biscate está ali pra saciar o desejo DELE e não porque ela também tem desejos. E se a gente – biscate – aponta este equívoco, ainda cobra a nossa suposta “contradição”.

Geralmente essa tal contradição se refere à facilidade de acesso. Desenhando a razão da raiva: conversando a gente se entende. Pode ser só sexo. Se a gente quiser, pode. Pode ser sexo e amizade? Mesma coisa. Pode ser relacionamento monogâmico fofinho-dormir-de-conchinha-ir-buscar-na-rodoviária? Pode. Pode tudo. O que não pode é sugerir A e, depois, dizer que é só B e que como somos biscates, tá tudo ok. Dá raiva. E, aí (vamocombiná), não tem nada de biscatagi, é o velho e péssimo machismo de sempre que trata mulheres como objetos.

Nessas horas, amiga-biscate-decepcionada-e-cheia-de-raiva, nada como fazer um pão. Tem pratos que se feitos com raiva dão errado. Pão fica melhor com esse ingrediente. Então, vamos à receita.

Tenha em casa os ingredientes para o dia que essa raiva aparecer. São eles: óleo e/ou azeite, sal, açúcar (refinado — não pode ser nem cristal, nem orgânico e muito menos mascavo), ovo (opcional), farinha de trigo e fermento biológico seco (envelopes de 10 gr ou uma colher de sopa) e água.

Numa bacia média coloque pouco mais que meio quilo de farinha e cave um buraco no centro, jogue conteúdo do envelope de fermento, cubra com duas colheres de sopa rasas de açúcar e coloque apenas sobre o fermento com o açúcar um pouco de água morna (mais para quente). Cubra com um pano de prato e deixe o fermento agir (= fermentar) por uns 10 min. Verifique se água continua na temperatura mais para quente e acrescente mais uma colher de sopa de açúcar e outra de sal, de 3 a 4 colheres de sopa de óleo e/ou azeite (pode misturar um pouco de cada) o ovo (temperatura ambiente, ou cave um outro buraco na farinha para abri-lo — se o ovo estiver gelado o deixe entrar em contato com o fermento), vá misturando direto com a mão e colocando a água morna aos poucos. Caso fique mole demais e não desgrude das mãos, coloque um pouco mais de farinha até acertar. Não é difícil achar esse ponto. Massa de pão quando está no ponto desgruda fácil da mão. Tire a massa da bacia e coloque sobre uma superfície onde possas amassá-la.

Vá amassando, intercalando movimentos de juntar (embolar) e abrir (rasgar) a massa. Não é agora ainda a hora de descarregar a raiva. Trabalhe na massa o suficiente para ela ficar homegênea e desgrudando tanto da mão quanto da superfície. Faça uma bola da massa e a coloque de volta na bacia. Cubra com o pano de prato e se possível coloque num lugar morno. (coloque a bacia sobre uma vasilha com água quente, por exemplo). Deixe a massa descansar por no mínimo 20 min.

Antes de juntar toda a sua força e raiva e partir pra cima da massa com tudo, unte a forma com óleo (bem pouquinho e espalhe com os dedos — o calor da mão ajuda e a mão engordurada ajuda na hora de pegar a massa). Retire a massa da bacia e trabalhe-a de novo sobre a superfície, mas agora usando mais força, rasgando e embolando mais agressivamente. Bata a massa sobre a superfície sem dó, soque-a se isso lhe fizer bem. Faça isso por uns 15 min ou até o braço cansar. Quando terminar, ajeite a massa na forma (se a forma for retangular deixe a massa mais ou menos no mesmo formato, menor — claro). Aqueça o forno levemente e desligue. Coloque a forma lá dentro e deixe a massa crescer até triplicar de tamanho. Ligue o forno em temperatura média, pão deve assar lentamente ou doura muito rápido e não dá tempo de assar por dentro.

Opcionais: Pode substituir um terço da farinha de trigo por farinha de milho ou de centeio e ainda acrescentar linhaça, passas, gergelim e outros grãos da sua preferência (com parcimônia).

Para essa receita não usei a raiva de apenas uma situação, juntei várias porque estou numa fase “revolta mode on”. Pelo menos o pão fica macio.

Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.
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5 respostas para O Pão da Ira

  1. Renata Lins disse:

    Parece ótimo. Experimentarei em dia de ira. >:)

  2. Leila disse:

    Adorei o texto … sempre amei cozinhar.
    Também estou num momento “revoltes” …
    O pão da ira é uma ótima terapia!
    Abraços. Sorte e muito amor.

  3. Renata Silver disse:

    Ótima! Toda vez que me encherem o saco, vou apelar pro pão. O problema é que, do jeito que a coisa anda, vou acabar abrindo uma padaria!

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