Alter Ego de Biscate

Se me perguntassem quem eu gostaria de ser eu responderia: eu mesma, porque, bom, minha vida é boa e dá um certo trabalho ajustar-se a um corpo, um pensar, um sentir. Então, respostinha rápida: eu gostaria de ser eu. Mas se fosse de todo impossível e tivesse mesmo que pular pra outro canto, escolheria ser a Scarlett O’Hara. Pra mim é a maior personagem do melhor filme já feito (sim, eu sou superlativa). É também, a mais repetidamente considerada biscate. De forma atemporal, inclusive.

“Nothing modest or matronly will do for this occasion!”

Se você não sabe quem é Scarlett O’Hara, baby, é hora de rever os seus conceitos. Mas sou boazinha (#not) e vou dar umas dicas: ela é personagem de um romance sobre a época da Guerra Civil dos EUA escrito por  Margaret Mitchell e que resultou em uma adaptação cinematográfica, produzida por Selznick. Pra ajudar a entender como os motivos das condenações de biscatagi assim como a moral prevalente mudaram pouco, informo que a Guerra Civil Americana ocorreu entre 1861 e 1865 (uma leitura deliciosa sobre o livro e a personagem foram feitos pela Caminhante Diurno aqui)…

Um pequeno resumo não do romance mas das acusações de biscate:

Scarlett é dita biscate quando, jovem, solteira e desimpedida, gosta de receber a atenção e amizade de vários rapazes. Eles não tem culpa, coitados, são “enfeitiçados” pela biscate malvada e sedutora. Sobre a situação, a pérola que volta e meia reaparece, só trocando o primeiro verbo: “os homens flertam com estas mulheres, mas não casam com elas” (os homens transam, comem, agarram, namoram, etc., mas não casam com elas…pareceu familiar?).

Scarlett é vista como biscate por, viúva antes dos 20 anos, não aceitar viver o resto da vida à sombra da lembrança do marido, sem rir, dançar, encontrar com as pessoas…

Scarlett é encarada como biscate por, ainda que amorosa, não ser uma mãe nos padrões convencionais, preferindo um filho a qualquer outra experiência na vida. Ou seja, uma pessoa que é mãe nunca mais pode ser mulher, trabalhadora, amiga, esposa…

Scarlett é considerada como biscate por casar 3 vezes tendo como critério a avaliação de suas necessidades e não o mito do amor romântico convencional (aliás, adoro que ela se casa só pela “diversão”).

Scarlett é dita biscate por ser abordada, assaltada e quase estuprada por estar na rua sozinha à noite. A culpa é dela, que provocou…. (ops, parece com alguma coisa do cotidiano?).

Scarlett é vista como biscate por estar sozinha em uma sala, abraçada com um amigo casado (só por curiosidade e a respeito da suposta rivalidade entre as mulheres, a única pessoa que a defende é sua amiga e esposa do tal cara casado).

Scarlett é identificada como biscate por tocar sua vida, decidir o que quer, trabalhar por isso, negociar “feito homem” pra fazer seu negócio crescer e garantir estabilidade pra sua família.

Scarlett é a anti-heroína. Ela é julgada o tempo todo mas dá de ombros, diz seu mantra: “eu penso nisso amanhã” e segue desejando, mudando, querendo, lutando, amando, sendo cada vez mais quem ela se constrói, com suas dúvidas, com seus anseios, sabendo-se diferente da maioria, ponderando entre adaptar-se e ser quem é. Sofrendo também, claro. Mas seguindo. Forte. Inspiradora.

Também eu, Scarlett, juro que nunca mais passarei fome.

E não é de nabos que estou falando.

Sobre Borboletas nos Olhos

É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
Esse post foi publicado em biscatagi é cultura, cinema, desejos de biscate, memória biscate e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Alter Ego de Biscate

  1. Cássia disse:

    Sensacional!
    O engraçado é que o tempo passa e as coisas não mudam mesmo. Que bom que estamos por aqui…

  2. Scarlett é diva.
    Demorei anos para entende-la, era demais para a minha moral católica de classe média.
    Mas já simpatizava com ela, desde criança, quando assistia o filme, que sempre passava nos finais de ano na globo.
    Já um prenúncio de que eu seguiria o mesmo caminho?
    O mesmo não.
    Scarlett tem um egoísmo saudável, e uma dureza necessária, que me faltam, ainda.
    Mas chegarei lá.
    Ainda tenho fome, apetite, prazer.
    Minha generosidade, que é fraqueza, também é força, porque mesmo não crendo nesse deus cruel dos livros de religião, acredito que a lei do retorno está aí, e me protege.
    Nunca fui má, deliberadamente.
    Assim também nunca o foi Scarlett.
    Ela soube fazer o que foi necessário.
    E eu também estou aprendendo a fazer.
    O livro é fantástico, eu só fui entender Rhett, como o lindo post da Caminhante falou, depois de ler o livro.
    E mais uma vez, saudade e vontade de madadayar contigo e voltar para as Geraes, falando uma mistura estranha e gostosa, do gosto da amizade, de mineirês, paulistanês e “cearensenês”.
    Beijos beijos beijos e obrigada por existir!

  3. Amanda disse:

    Adorei! Gente, esse espaço aqui é muito refinado. Nunca tinha pensado em Scarlett dessa forma. Beijos

  4. Luciana disse:

    Cássia, Renata e Amanda, brigadíssima pelos comentários gentis…devo reconhecer que o mérito é menos meu que dessa personagem incrível (e, ainda mais, da fantástica MM que a pensou).

  5. Show… Eu nem gosto tanto do filme, sou mais fã do Ford, da linha Leone, mas a peronagem é mui bacanona. E o texto idem.

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