Biscateando com o feminino

Por Silvia Badim*, nossa Biscate Convidada

Bom, ser biscate não é uma tarefa fácil. Isso já é sabido em tons fortes e letras claras, com dedos em riste e defesas prontas para sermos quem somos. Uma biscate vai conquistando espaço, esparramando-se, sentindo-se à vontade com seu eu no mais profundo feminino plural. Um feminino feito de muitos, uma vontade feita de muitas, e uma liberdade conquistada de seguir seu caminho e dizer: eu vou. E vamos assim como for, com as pernas de fora ou os seios respirando ar puro, com paqueras roubadas ou beijos pedidos, com amigos risonhos e amores declarados. E, sobretudo, com coerência de ser quem se é. Com o sorriso franco rasgado de orelha a orelha, saltando pelos olhos: eu posso. E como é bom ser quem se é.

E a gente pode ser muita coisa, mesmo que os julgamentos avolumados digam não. Caminhamos pelo não com o orgulho afiado, buscando a autoestima esticada pela felicidade. E as possibilidades de amores se alargam à medida em que caem as amarras morais. O afeto cresce em cada esquina onde exista uma flor vermelha, e a vontade aumenta em cada gozo compartilhado com sede de vida.  A gente pode, a gente tenta. A gente quer.

Uma biscate aprende logo cedo que amor não se esgota, amor se multiplica. Que o corpo é a chave para a acessar tanta coisa lá dentro, e lá dentro é um mundo que não ter portas ou fronteiras. Lá dentro é grande e fundo como os oceanos gelados. E a gente mergulha, é claro que a gente mergulha. Porque sem mergulhar as coisas perderiam metade da graça, e morreriam sem nunca terem nascido por completo. E eis que um dia, lá embaixo, naqueles mergulhos profundos, a gente descobre que a sexualidade é livre. Lá, beirando o fundo, não existem marcas de territórios ou quadrinhos com posses e regras.  É um reino livre para nadar-se de braçadas, para acolher-se em estado submerso. E se o preconceito já não existia para o outro, passa a não existir para a gente também. A gente perde o preconceito com a gente mesmo. E aí a vida pode se apresentar, sorrir e chorar, colocar amores e desamores aos montes, escondidos debaixo da pedra ou visíveis em cartazes. A gente enxerga. A gente enxerga a gente sem máscaras, desenrola o novelo e lá no fundo somos essência brilhante que molda-se livre.

As barreiras de gênero então se alargam e a gente se permite biscatear com o feminino. Biscate-biscate amando mulher, repartindo corpos nus com a mesma forma e mistério de entranhas. O amor pode, ele é. Biscate ama, mulher ou homem, feminino ou masculino, homem-mulher ou mulher-homem, trans ou supertrans, qualquer coisa acima de rótulos ou caixinhas com etiquetas. A gente quer o outro, assim como ele é. É assim que é bonito: assim dilacerado em verdades, assim pronto para transgredir a vala comum. Até porque não sabemos de fato o que somos. Mas temos pistas e vontades acolhidas.

Sim, somos biscates. E somos livres. Eu sou!

.

* Silvia Badim é uma santista morando em Brasília, escrevendo no blog Estranhas Entranhas, gostando de Nina Simone, Bob Dylan, Billie Holiday e Chico Buarque. Diz ela, com auxílio dos Mutantes, que “seu peito é de sal de fruta, fervendo no copo d’água”, nós achamos que ela escreve lindamente espalhando sua entranhas vermelhas por aí e aqui. Você pode conhecê-la melhor na sua página do Facebook.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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15 respostas para Biscateando com o feminino

  1. Clara disse:

    “E a gente pode ser muita coisa, mesmo que os julgamentos avolumados digam não.” Mais surpreendente, é quando esses julgamentos avolumados vêm de pessoas que você jamais suspeitaria. Parabéns Silvia pelo texto. Gostei muito…

  2. Sueli disse:

    “A gente perde o preconceito com a gente mesmo. ” Estou trilhando por esse caminho…
    Biscate em construção…

  3. silvia badim disse:

    Opa, sigamos sempre em construção! Beijo!

  4. Adorei, muito lindo mesmo.
    A gente pode ser tão condicionada, que esquece que temos preconceitos internos, contra nós mesmas.
    Agradeço por lembrar que essa é uma desconstrução e construção cotidiana.
    Beijos, linda!

  5. alexandre moreira disse:

    Silvia
    assustadoramente moralista e ‘preso’ a uma ética individualista este seu texto, quase um paradoxo. Surpreendem-me estes tempos de inchada publicidade do feminino. .Este romantismo, os texto é sobre isto no final, não é mesmo(?) me lembra o dito de Simone de Beauvoir sobre a ‘dura materialidade feminina’ que por oposição parece ter de se agarrar em histórias e construção de um personagem ‘heróico’ feminino, por vezes contraditoriamente agarrado aos prosaicos heróis masculinos(!), almas errantes num mundo margeado de oposição em busca de um ‘nirvana’ libertador ! Só me faz pensar em como, a de novo, ‘a dura materialidade feminina’ quer se compensar numa quase “religiosa” construção deste ‘nirvana’ que muitas vezes é o próprio caminho. Me pergunto se algum dia a humanidade vai realmente se libertar de tanta necessidade de construções ilusórias, sonhos desenhados com nuvens varridas pelo vento universal…bem além da construção de novos códigos morais e comportamentais…cartilhas de comportamento realimentando um momento em que consumir(se) é o item de um manual ‘invisível’ de comportamento. A liberdade tal como o livre arbítrio é uma experiencia de tubo de ensaio. Um nirvana circustancial. Qualquer generalização sobre ela é um grilhão.Sonhos são reflexão em forma poética…e só.

  6. Amandita disse:

    Seu texto tá lindo, Silvia! Só não entendi o comentário do Alexandre…

  7. Seu texto tá lindo, Silvia! Só não entendi o comentário do Alexandre…(x2)

  8. silvia badim disse:

    Também não entendi metade das colocações do Alexandre, talvez seja meu senso individualista-sonhador….rs.
    viver não tem nada de heróico, viver é positivo e é dia-a-dia. Mas, sim, é preciso sonhar e é preciso libertar-se, um poquinho, todos os dias. sem sonho não tem realidade que se transforme. e é possível, eu posso dizer que sim, a partir das nossas experiências pessoais, sonhar uma mudança coletiva. é por isso que estou aqui.
    Não procuro traçar personagens heróicos feministas, nem tampouco viver como uma. procuro mergulhar e mim. eu ME procuro. e assim busco também enfrentar as amarras morais, machistas, que aprisionam a mulher dentro de uma sexualidade limitada e subjulgada, onde os mergulhos não podem acontecer sem culpas ou sem “objetificação” da mulher e do próprio sexo.

  9. Amanda Montenegro disse:

    Quanto talento, texto lindo.

  10. alexandre moreira disse:

    Silvia,
    Seu texto como é da natureza da escritura, tem por um lado o desenho de palavras e de outro um discurso ‘politico’ de superfície, que é este aí que você nega que enalteça o heroísmo falado da vida em dia a dia do marketing feminista e da diversidade.O outro é o das “vai conquistando espaço, esparramando-se, sentindo-se à vontade com seu eu no mais profundo feminino plural” que abre espaço na mente para a aventura heróica do indivíduo no coletivo. Desenhando por oposição, guerra de conquista ou imposição da aceitação das diversidades (sou a favor da diversidade!).É um sonho, muitas vezes uma vida por oposição, um contra-manual de atitudes, piratear o ‘copy cat’ através do espelho por absurdo; é uma ‘liberdade discursiva’ apesar de todas as atitudes físicas reais implícitas .Acho que faz parte do momento da história construir toda esta “lista de atitudes”, um consumo quase obrigatório de tatuagens tribais, na fobia da contradição de pertencer a algo no coletivo.Até no ritmo das palavras o texto vai num crescendo procurando o envolvimento do leitor no seu rodamoinho de reflexões morais num andamento vertiginoso, organicamente casado com a visão iconoclasta do seu assunto. No final, depois do furacão. fica a contemplar os estilhaços e transfigura-os em ‘diversidades’ (!)positivas numa mistura de visão impressionista carregada de expressionismo. Passar por isto não é exatamente ‘anti-heróico’…
    Assim como “aprende logo cedo que amor não se esgota, amor se multiplica” poderia ser uma frase do novo testamento dos cristãos em tradução livre ou do buda que convier ao interpretante (viva a diversidade ensandecida certo ?!)
    O paradoxo ? A reintepretação do manual, a ‘quase’ lista de atitudes, a liberdade substanciada no sonho em vez de verbalizada no real.

    • silvia badim disse:

      Bom, Alexandre, agradeço suas colocações, é sempre bom ler críticas, elas acabam nos fortalecendo. Discordo muito do que consegui entender do que vc escreveu, mas fico por aqui, pois talvez esse debate acabe patinando no mesmo lugar, sem trazer nada a mais para nós dois, e para quem nos lê.
      Meu texto parece ter mesmo mexido com você.
      abraços.

  11. alexandre moreira disse:

    Claro que mexe…se não estaria patinando. A
    liás patinar pode ser gostoso. A teimosia pode ser um instrumento de comprovação na mão de experimentalistas 🙂 abs

  12. Pingback: Quiz Biscate |

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