A boa violência

Shibari, do theobscura.org

Era uma vez outra biscate – que já contei tantas histórias de biscates nessas sextas-feiras, não? – e ponto.
Essa biscate era antenada. Ligada. Pós-modernizada. Defendia o direito biscate aqui e ali. Falava de liberdade, falava de opressão. Reivindicava. Suava. Biscate que dava.

Tinha um segredo.

Não dizia a ninguém, tinha medo.

Essa biscate, tão feminista, fantasiava submissa. De quatro, amarrada, couro e correntes, apanhava. Xingava, gritava e gozava de dor.
A biscate gostava era de violência. Difícil assumir. Apontavam-lhe dedos, discursavam nos mais diversos palanques: sobre a fantasia, a pornografia, a dominação.

Até que assumiu. Assumiu e, como biscate que era, bancou.

Pois qual não foi a surpresa das outras – feministas mas tão, tão moralistas – descobrindo que a violência podia sim, ser liberdade. Biscatagem da mais pura, autêntica: bastava que ela dissesse “sim – faço porque quero”.

Sobre Marília Moscou

socióloga, escritora, poeta, comunista, feminista, bissexual, não-monogâmica (ou anti-monogamia?)
Esse post foi publicado em desejos de biscate, uma biscate quer e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

15 respostas para A boa violência

  1. Biscate quando gosta de alguma coisa, assume. E como dizem, tapa de amor não dói (assim como chicotadas, mordidas, mordaças, arranhões…)

    Adoro seus textos, Mari!

  2. Renata disse:

    Mari Moscou, biscatági a serviço da quebra de paradigmas.

  3. Gi disse:

    A bisca aí quebra tabu, viu! Isso mesmo, a violência, nesse caso, deixa de ter essa conotação ofensiva e passa a ser considerada “boa” por expressar a livre escolha da mulher. Liberdade de ser e de sentir o que se deseja!

  4. Amei, Mari! Post libertador, libertário. \o/
    Não interessa do que gostamos a não ser a nós mesmas. Não admito que ninguém — nem mesmo as feministas — determine o que devo ser, gostar ou agir. Sou livre para ser o que sou e assumir isso, sambando na cara dessa sociedade moralista e hipócrita. Não é nos prendendo a conceitos e comportamentos preconcebidos que iremos nos libertar.
    Ser feminista é poder ser o que quiser, inclusive biscate.
    Beijo!

  5. Marília Moscou disse:

    Suaslindas todas e todos que comentaram. ❤

  6. Mari Andrade disse:

    Adorei!

    Sempre acreditei que entre 4 paredes vale tudo, desde que seja consentido pelos dois e que ninguém se sinta nem constrangid@ e nem humilhad@.

    Bjusss

  7. Viniciusmdb disse:

    O que é bom e saudável para um casal ou três ou mais, não cabe criticar, viva a liberdade!!!!

  8. Daniele disse:

    Adorei 😀

  9. Amanda disse:

    Bão. Eu não vi polêmica aqui 😛
    Posso polemizar, então? Violência consentida é violência?

    Vamos lá moçada, quero um post sobre sadomasoquismo aqui… Conceitos! Conceitua aí pro povo não sair batendo a torto e a direito e repetindo aquele bordão horroroso de que “toda mulher gosta de apanhar”. Até porque isso não está no post, mas né, vamos desenhar porque pra quem não tem a menor familiaridade com o assunto seria bom uma seqüência desse post, mais explicadinha… Bejos!

    • Marília Moscou disse:

      Então, mas será que a violência consentida no erotismo é só S&M? Um tapa na bunda, por exemplo, não é necessariamente S&M… É?

  10. Lia Padilha Fonseca disse:

    Adorei!! 😀

  11. Sueli disse:

    Muito bom. É complicado pra uma feminista assumir que sente prazer na submissão, mesmo sendo ela consentida.

    • Marília Moscou disse:

      Ué, Sueli. Não entendi por que seria complicado… Por ser possivelmente julgada mesmo entre feministas?

  12. Sueli disse:

    Exatamente.

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