Das minhas memórias perdidas, um canto e a lua

A nossa lua não é a única do sistema solar, mas é o único satélite natural da Terra e está há 384.405 km de nós. Influencia as marés, a agricultura, os signos, determina nascimento dos guris quando nova e das gurias quando cheia e encanta os povos desde que se tem notícia da existência humana. Mas esse encantamento tem a ver com a sensibilidade de cada uma/um e eu acho que a lua se mostra mais bonita e encantadora para quem tem olhos para ela. Tal qual esse post-canção-história é para quem souber ler, ouvir, sabê-la.

Fui a shows demais do Tarancón na vida e isso já tem tanto tempo que parece que foi em outra vida. É um som que cheira movimento estudantil, shows ao ar livre ou em pequenos espaços abarrotados de estudantes e faixas acompanhadas de palavras de ordem misturado ao cheiro de ervas, a ilex paraguariensis e a outra. O Tarancón carrega a identidade latino-americana em seus acordes e arranjos, é música enganjada.

Daquela época, idos dos anos 80, lembro muita coisa. Sou capaz de lembrar de discursos, intervenções, discussões (as mais intermináveis), comícios, passeatas, pancadaria da polícia, teses e textos chatos. Não sabia, até a primeira noite de lua cheia de 2012, que a minha memória afetiva e lúdica estava tão comprometida, apagando.

Eis que a minha companheira no comando dessa bagaça aqui, a bisca-graúna-borboleta da Lu, me devolveu essa memória afetiva com uma canção. Um gesto tão simples e descompromissado e ela nem percebeu o tamanho do bem que me fez. E foi ouvindo essa música e mergulhando nas minhas lembranças mais caras e que estavam esquecidas que decidi escrever sobre a lua, a biscate mor, e vou fazer isso pegando carona no Canto Lunar, que me trouxe de volta o ludismo. Senta que lá vem história, porque é memória adormecida despertando ‘dicumforça’ com seus tons, sabores, cheiros, sons e sensações.

Essa versão é recente, gravação comemorativa dos 25 anos do Tarancón de 1997, em parceria com Daniela Lasalvia. Até tentei recuperar uma gravação mais antiga, mas seria impossível conseguir uma gravação ao vivo da época das memórias. Então clica aí e vai ouvindo enquanto lê, ou talvez o texto não faça sentido.

Rebeldia sempre foi meu segundo nome e a serenidade só me vinha em raros momentos de passeio dos olhos pelo céu, quando levantava a cabeça do horizonte da marcha cega da luta diária do ativismo ou parava para um chimarrão. Eu era só uma guria cheia de sonhos de mudar e ganhar o mundo, e essa dimensão de ir de Ipanema ao Irã era como se pudesse passear pelo céu do mundo todo em apenas uma noite. Magia pura. Por vezes nesses passeios me sentindo a própria lua, com minha aversão a modas e modismos. A guerra nunca foi exatamente o oposto de paz, carrega pra mim o sentido das revoluções, do não-conformismo, das revoltas legítimas pela liberdade. Um convite à esperança de revolucionar o futuro.

Uma lua correndo apaixonada como bailarina no céu e reinando sobre quem a olha e a segue encantado como pássaro e que é de todos, de quem a quiser. Quer coisa mais biscate, libertária e sedutora? Não, eu não lembrava de paixões ou amores ao ouvir esse trecho. Aliás, esse é o problema: Eu tinha esquecido dessa música (hereje!) e a música é por si tão biscate quanto a lua, as lembranças que te traz hoje podem mudar amanhã. Não lembro bem o que “minha lua corre apaixonada” me lembrava. Sei que pouco me apaixonava. Ou me apaixonava muito? Só sei que não eram paixões profundas e eram muitas… Muitas, mesmo. Os guris eram um pouco “utilitários” para mim, para descarregar tensões e a avalanche de hormônios, embora eu não elaborasse dessa forma. O foco da minha paixão/amor era outro, mais amplo, e nesse campo eu sou constante. Tinha um quê de sagrado nesse amor maior que aos poucos foi se misturando aos quereres com quês de pecado, mundanos. É um pouco perder as ilusões e se libertar ao mesmo tempo, sem perder as utopias que me movem até hoje.

Pensar a lua com consciência de classe, que até pode ser das princesas (eca!) mas é com mais certeza dos garis, é o canto da sereia para qualquer rebelde. Todo ativista social, que intervém e cumpre um papel de representação, tem muito de ator/atriz e ter a lua quando a noite cair — quando ela se apresenta mais esplendorosa no céu é, e sempre foi, quando mais me chamou a atenção nas longas caminhadas atravessando Satolep ou qualquer outra cidade do sul — como companhia é quase libidinoso.

E o canto que já era lindo ganha contornos de perfeição… Falar em prisioneiros logo após a clara opção de classe é falar obviamente de presos políticos, ou pelo menos era assim que entendia e entendo até hoje. Esse sempre me foi um assunto muito caro. Nessa época, a primeira década de respiro após a ditadura, só conseguia me manifestar sobre esse assunto através de poesias, filmes ou música sem precisar falar ou escrever. Era impossível, era uma dor que consumia, inexplicável. Dor que ainda me consome e ainda é inexplicável, mas da qual já consigo falar, escrever. Canteiros e chafariz é coisa de notívago andante das madrugadas, tem gosto de fim de festa, de bebedeiras coletivas e imensas celebrações e amassos sob o sereno. E foram muitas as celebrações, e os amassos, no arriscado chafariz da Praça Cel Pedro Osório, entre o “primeiro” e o “terceiro mundo” (caminho entre os bares burgueses e alternativos) pela Gonçalves Chaves, no pátio da Odonto, na praça e na boate do Direito, nas doquinhas (antes de ser o Quadrado), na Praça dos Enforcados na subida da Escola (hoje IFSul) e na passada pela ESEF… E tinham ainda as celebrações e andanças pelo Bonfim e pela Redenção em Porto Alegre e em outros céus do pampa.

Oh lua, a lua é da cidade, da humanidade e de quem quiser” guarda em si — se é que isso é possível — a alma dos utópicos, todos eles, todos nós. Esse canto é tão grande que só a lua para abarcá-lo, essa biscate que é de todos, mas só de quem a quiser. E assim como toda biscate, a lua é rebelde e é ela quem escolhe seus apaixonados. Não se escolhe gostar da lua porque o dia a dia nos faz esquecê-la. Só quem é escolhido é lembrado nos hormônios, humor ou é atraído a ela pelo olhar quando está visível. Lua é encantamento, e ganha um quê de magia as memórias do caminhar e a utopia de virar o mundo do avesso tendo a biscate mor como companheira.


ps 1 – “Canto Lunar” é de autoria de Denise Emmer, de 1983.

ps 2 – Ainda faltam muitas lembranças que estão perdidas, soterradas e que necessito rever, sentir. Um amigo querido me convocou para “uma imersão no tempo: muita cerveja, muito filme Sessão da Tarde, Tarancón, Raíces, desenhos do Coyote e Papaleguas, poemas da Cecília Meireles. Tudo isso descalço, no parque“. Aí, lembrei de acrescentar jogar milho aos pombos e poemas do Leminski e Neruda. Mas agora já lembro de comer bergamota no sol no comecinho do inverno e cuspir as sementes… Buenas, essas já são outras lembranças que nada tem a ver com a lua ou com o Canto Lunar e podem esperar a tal sessão “imersão no tempo”.

Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.
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25 respostas para Das minhas memórias perdidas, um canto e a lua

  1. ftiagocosta disse:

    Lindo texto! Faz toda a diferença lê-lo ao som da música “Canto Lunar”! Um presente para essa árida tarde! =***

  2. Gi disse:

    Que texto cheio de lirismo e liberdade! Espero que as biscates virem o mundo do avesso com a companhia da biscate-mor! 🙂

    • Lirismo, liberdade e lembranças que me são muito caras. Eu meio que precisava devolver o presente que a Lu meu deu, e decidi fazer isso para todo mundo.
      Tomara mesmo que as biscates virem esse mundo do avesso e que eu esteja junto. 😀

  3. Me trouxe lágrimas aos olhos e uma vontade imensa de procurar o “coelho na Lua”.
    Texto muito bom.

  4. Diria que teríamos que arrumar um desses parques que abrem à noite… ou… biscateando… pular o muro dum. Lindo texto.

  5. Passei por POA duas vezes nos últimos três dias. Lendo esse “post”, lamento não ter podido caminhar por lá e conhecido os lugares citados.

    • Na verdade eu cito mais os lugares de Pelotas do que de POA, mas andei pelas madrugadas nas duas cidades (e em outras) sempre acompanhada da lua. Obrigada pela visita e pelo comentário, Glauco. 🙂

  6. Marília Moscou disse:

    Eu gostei do texto, não conhecia a música! Mas fiquei meio confusa sobre o propósito-biscate dele, confesso…

    • Achei que tinha explicado no texto e na letra da canção. Ademais, são algumas das minhas memórias lúdicas, biscates, libertárias em companhia da biscate mor (a lua). Pena que não entendeste. 😦

  7. mayroses disse:

    Lindo texto, Niara 😉 Fiquei emocionada mesmo. A lua é realmente a biscate-mor. Todas as reverências a ela \o/ …essa lua maravilhosa que é cúmplice de tantas biscatagens. Parabéns!!

  8. Amanda disse:

    Poético, delicado, nu. Escandalosamente nu. Tem uma intimidade muito rara por aqui. E muito necessária. Um brinde! 😉

  9. Adriano Alves disse:

    Que lindeza lunar esse texto, Niara.
    Me encheram dágua os olhos lê-lo ao som de Tarancón. De seus gostos musicais, só conheço o do brega na TL/FB.
    Me trouxe uma nostalgia dos tempos que não vivi. E isso é possível porque a lua é a biscate mor dada a todos desde antes da invenção do tempo.
    A lua é companheira da noite dos solitários-poetas-rebeldes-apaixonados.

    E se não fosse esse céu nublado, o leria sob ela, mas só a brisa que bateu já significa que ela ficou grata pela lembrança. E eu mais ainda, nesses tempos de revolta. Só a lua para amaciar o som de um disparo.

    Do dark side of the moon ao Banho de Lua que deixa branco como a neve, valeu pelo post!

  10. Pingback: Gramática Biscate, Lição I |

  11. Gilson Moura Junior disse:

    Belissimo é pouco. Taquiuspa. Nem vou falar mais nada porque estraga.

  12. Ane Brasil disse:

    UAU! valeu, bicho, valeu ter “se exibido” por lá.
    Sorte e saúde pra todos!

  13. Lindo lindo lindo e eu não tinha lido ainda, Niara. Delícia de lua, biscate como ela só.

  14. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

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