Prazer. Sou biscateira, com orgulho!

Por Adriana Torres*, nossa Biscate Convidada

Minha mãe sempre debochou de mim dizendo que desde que nasci preferi colo de homem do que de mulher.

Continuei assim durante anos, tendo mais amigos homens que mulheres, até porque trabalhei em empresas onde 90% dos funcionários eram do sexo masculino (ok, deletei da memória a terrível época que estudei no IEMG e só tive mulheres como colegas de sala…)

Nunca entendi de moda, mas sempre me vesti razoavelmente bem (clássica, usualmente. Não sou de arriscar).

Não ia ao salão com frequência fazer as unhas (e não sei fazer em casa), mas meus cabelos sempre foram motivo de gastar tubos e tubos de dinheiro para, a cada ano, estar com um look diferente.

Comecei a beber com onze anos de idade. Coisa de quem frequentava cidade de seis mil habitantes e que não tinha nada mais pra fazer além disso. E comprei meu primeiro maço inteiro de cigarros com treze.

Nessa idade, saia com minhas irmãs e ficava até cinco horas da manhã na rua. Minha mãe nunca ligou para horários, pois dizia que “quando se aperta demais, escorrega entre os dedos”.

Por outro lado, não tirei um único sarro antes dos meus dezoito anos. Apenas beijos na boca (e tapas nas mãos, eita, falta de paciência). Virginiana, com ascendente em touro e fã de histórias de amor, para mim sexo era algo muito valioso para ser feito com qualquer um que aparecesse. Todas as minhas amigas já tinham transado e eu “na amarração”, como elas diziam.

Pois é, quem mandou nascer do contra nessa vida?

E mesmo depois do meu primeiro amor, continuei fiel a ideia de que sexo era como um champagne francês – para ser apreciado de forma única, estupenda, sem pudor, mas na hora que eu achasse conveniente, com quem eu quisesse.

E dá-lhe controle de qualidade, para desespero de algumas queridas amigas feministas que me julgavam a “carola”!

Mas, afinal, porque estou aqui escrevendo esse monte de coisa sem pé nem cabeça?

Eu sou uma biscate qualquer. E uma santa. E uma louca. Eu sou uma colcha de retalhos, maluca, certinha, safada, fiel, amiga, amante. Eu sou uma porção de Adrianas dentro de um corpinho até bem pequeno pra tanta personalidade diferente.

Gargalho alto (muito alto, vocês não tem noção. Fui contralto em coral, tão ligados?) ; adoro decotes e fendas;

Não sei conversar sobre moda, cosméticos ou maquiagens. Mas acho lindo quem sabe.

Tenho uma fé gigante. Amo minha religião, não com fanatismo, mas com aquele amor puro de quem se sente realizada em sua crença. E choro quase toda vez que canto canto Ave Maria (mesmo não sendo católica).

Adoro meu trabalho. Ah, atuo com movimento social. Discuto política, gestão pública, qualidade de vida, justiça social e otras cositas más diariamente no mundo off e online.

Amo ficar em casa quieta, fazendo um comida gostosa pros amigos ou pro maridão, curtindo um estar contente, sem grandes pretensões do amanhã.

Enfim, quero dizer que eu não me encaixo na “mulher incrível”. E não sou biscate por completo, não na definição dos últimos posts que vi por aqui no Club. E é aí que eu queria chegar!

Nem toda mulher quer ser amada. E tá certa.

Nem toda mulher quer dar só pra um. E tá mais certa ainda.

Algumas não querem nem dar. Estão erradas?

Não somos um modelo de nada. E não somos homogêneas. A cada dia estamos de um jeito, todas sabem disso e todas comemoram!

O importante dessa bagaça toda é que eu sou o que eu sempre achei que devia ser. E ninguém tem nada com isso.

Essa, pra mim, é a essência da biscate.  Ser perua, santinha, doce ou maligna, de esquerda, de direita, do centro e o escambau. Hoje de um jeito, amanhã de outro.

Sem fórmulas, sem certo, sem errado. Solteira, casada, divorciada, viúva… tudo biscate! E não mais biscate ou menos biscate.

Apenas assim, cada uma na sua individualidade. No ser única.

Sendo, acima de tudo, o que quer ser.

Jamais, never, apenas o que querem que ela seja. E isso significa também que, se ela quer ser o que o outro quer que ela seja, bom também.

Porque é o direito de escolha dela, saca?

Prazer. Sou biscateira. Com orgulho!

.

* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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18 respostas para Prazer. Sou biscateira, com orgulho!

  1. renatalima91 disse:

    O mais divertido do blog e da proposta, ao que eu entendo, é essa diversidade mesma, né, Dri?
    Como um texto tosco de ontem, falando do “uniforme de biscate”…
    Gente, biscate não tem, não usa e não é UNIFORME.
    Somos tantas quanto mais somos tantas em uma só.
    E somos tantas e tantas, não tentem nos colocar em caixinhas, pautar nosso debate, ou dizer que temos que incluir x ou y na proposta.
    Vai pautar a sua vida, porque eu escrevo na folha em branco mesmo, sem linhas, sem margens, sem ABNT!
    Biscate, com orgulho!
    Bjs!!!!

    • Ei, Re, nada como uma pessoa com boa capacidade de síntese como vc pra resumir o post em poucas palavras… É isso aí.

      Sempre seremos julgadas pelo outro por não nos adequarmos as caixinhas existentes. E, furiosos, continuarão tentando nos encaixar nelas…argh!
      Bjs, obrigada pelo comentário!
      Dri

  2. Lili disse:

    How interesting… Me vejo um pouco em cada post das biscates que venho lendo até então. Na minha tenra adolescência, “DAR” era o mais importante. Meninas que não davam (como eu que fui virgem até os 18 anos por opção) não tinham lugar nas panelinhas. Um dia, cansada das críticas à minha inexperiência e dos chavões do tipo: “Iiiiih, tá nervosa? Isso é porque ninguém te comeu até agora, você tem é que dar pra ficar mais calminha.” Deixei minha TPM se soltar e mostrar a bruxa orgástica que se escondia por detrás dos meus olhos azuis de ressaca e cachos tresloucados… respondi sem gritar… Sou Sagitário com ascendente em Escorpião e como vocês já perceberam, sei bem o que quero… Não quero DAR, como vocês fazem toda a hora e para qualquer um. Quem muito dá acaba vazia. Eu quero é TROCAR e muuuuuuuito, muuuuito gossstoso, viu? Até mais! Vou ali pular elástico e jogar cinco marias.
    Então, Adriana, ao meu ver, ser biscate é ser livre de amarras e de pré-conceitos, é saber o que quer e colocar seu coração em seus objetivos para ir até lá, alcançá-lo, agarrar-lo, beijá-lo e atirá-lo novamente no próximo objetivo. E eu não quero ser em nada diferente disto. Parabéns pelo seu post maravilhoso!

    Beijo grande!
    Lili

    • Que lindo comentário, Lili, obrigada!
      Como eu disse, cada uma de nós deve ser livre para encontrar o seu caminho, onde se sente feliz, não importando se isso não é o que esperam de você.
      Adorei o trocar!
      Bjs
      Dri

  3. Marília Moscou disse:

    Ameeeei seu texto, Adriana. Que coisa mais incrível. Muito, muito orgulho. Do texto, de você, de tudo. Ai, tô suspirando. 😀

  4. Pedro Ferraz disse:

    Demais. Ironia, realidade e sarcasmo. Esse blog tem rendido ótimos debates aqui no trabalho. Avante!

  5. É uma categoria nova de Biscate, a de ser biscate sem ser…acho válido e super biscateavel 😉

    • atorresmkt disse:

      Eu não vejo assim, posso estar enganada, mas na minha visão não existe categoria de biscate. É biscate, a partir do momento que não se permite ser o que os outros acham que eu/ela deveria ser. Neah? 😉

  6. Amanda disse:

    Texto lindo. Esse espaço aqui é pra mulher expressar o que ela tiver vontade, sem julgamentos. Sem rótulos. Quem acha que alguém aqui tá pregando um modelo de biscate num entendeu a brincadeira. O lance aqui é a desconstrução, é cada mulher poder chegar e dizer como é que ela se sente bem, segundo o próprio olhar, e não ao olhar do outro. Bem-vinda, Adriana, e volte sempre. Logo acho que vou postar alguma coisa… 😉

  7. Pingback: Sexta-Feira 13, dia oficial da Biscate |

  8. Pingback: O que achamos da matéria do Delas (IG) |

  9. Amanda Montenegro disse:

    auhauhauhauhauh Amei perdidamente o texto, foi para mim o melhor desse blog.

    Considero-me uma biscate, no auge dos meus 18 anos. Mas embora a luta feminista, o jeitão de louca e revolucionária, odeio ficar por ficar e tudo mais(mas defendo até a morte quem faz e gosta), no fundo, lá no fundo, só bem quieta.

    Porém a minha postura sempre me rendeu “apelidos de puta”, normalmente das meninas. As pessoas criam esse estereótipo de quem defende, mas ainda bem, eu nunca liguei.
    Prefiro ser chamada de puta, por defender a liberdade feminina, do que de santa e profanar o falso moralismo.

    • atorresmkt disse:

      Pois é, Amanda, eu também sempre fiz “o tipo”… hehehehe Parece que as pessoas tem dificuldade em lidar com complexidades, precisam nos colocar em caixinhas e rotulá-las, ao invés de aceitarem que cada um é cada um e não nos encaixamos em padrões pré-estabelecidos!

      E Aline, caramba, parabéns pela sua coragem… de casar antes dos vinte e um! hehehehe Eu demorei 39 anos pra fazer isso! =D

      Beijos e obrigada, meninas!

  10. Pingback: Quiz Biscate |

  11. Que lindo! Adorei o post. Ainda não conhecia o blog e esse post como primeiro deu uma bela de uma boa impressão =D.
    Diria que temos muito a ver, muito mesmo, até na gargalhada, até em ser contralto em coral haha. A diferença é que ao completar meus 21, me separei do marido porque me sentia numa gaiola. Porque o importante é ser feliz sendo do jeito que é.
    Beijão pra vcs!!
    Lili

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