O Peru

Peru, por Whatscookingamerica.net

Deliciava o olhar com o peru.

A pele dourada,

Coxas bem torneadas,

Era sexy o peru.

Dali ela olhava a festa em Família. O galináceo a fazia esquecer, tostado com as pernas abertas, chamando à orgia.

O molho.

O molho do peru, ah. O molho do peru.

O peito estufado, lambuzado, materializado de tesão e fome.

Ela não teve dúvidas, aproximou-se e com as pontas dos dedos estimulava os contornos viscosos, as carnes rijas e macias, os formatos sensuais daquele peru. Era mais forte que ela, já não podia disfarçar. A Família olhava assustada: o que queria ela com o peru?

Pontas dos dedos tornaram-se dedos inteiros que molhavam cada centímetro da ave. Dedos inteiros tornaram-se palmas, acariciando as gordas coxas apetitosas, tão disponíveis ali, pra ela. O tesão era tanto nas coxas que quase enfurecida arrancou uma pelo canto direito. A saliva escorria boa afora, os bons modos estavam perdidos. Lambeu aquele molho todinho, gota a gota, na coxa do peru. Enfiou a gostosa no pote de molho, e passou a chupar-lhe a cabeça. Quase gemia de prazer.

A Família chocada armava os telefones para acionar a carrocinha. O sagrado peru de Natal. Aniversário do menino Jesus. Profana. Vaca profana! Bradavam os mais ousados.

Só então ela se permitiu morder aquela delícia. Rasgar a pele todinha, pendurada pelos cantos da boca, o rosto lambuzado de suor e gozo. Molhava-se por dentro e por fora.

Quando chegaram os enfermeiros do hospício, ela devorava o peito, segurando o peru na forma, sobre a mesa, montada numa cadeira debruçando-se à frente. Enfiar o rosto naquele peito tesudo lhe fazia feliz. Estava tonta de orgasmos. Os enfermeiros não tiveram grandes dificuldades em leva-la. Ela não resistiu.

A Mãe olhava triste, balançando a cabeça em negação com os olhos cheios de lágrimas. “Por quê, minha filha? Por quê?”.

Porque eu quis”,

respondeu a biscate com o corpo à deriva, largado sobre a maca. Ela só sorria. Sabia por dentro e por fora, sabia ela toda, que essa mesma Família só era feliz com mulheres como ela, que trepavam com seus homens e lambiam as dobras das mulheres.

Nos becos escuros, cantos duros, bairros de apuros à ordem familiar. Onde os perus reinavam absolutos. Ao lado das biscates.

Sobre Marília Moscou

socióloga, escritora, poeta, comunista, feminista, bissexual, não-monogâmica (ou anti-monogamia?)
Esse post foi publicado em uma biscate quer e marcado , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para O Peru

  1. edileneruth disse:

    hahahahahaha
    Fiquei imaginando a cena, ótimo!!!

  2. Até mesmo um frango assado ñ será o mesmo dps desse texto
    rs

  3. Beto Mafra disse:

    Imaginando a parcela “Hannibal” das biscates, de olho grande pra cima de frango a passarinho.
    Rindo muito.

  4. renatalima91 disse:

    Super Clarice seu conto.
    Curti!

  5. Pingback: Sexta-Feira 13, dia oficial da Biscate |

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