As peruas Biscate e Santinha – descubra quem, afinal, é a biscate

Eram amigas. Cresceram juntas. A princípio, apenas duas meninas a brincar de bonecas e a dançar músicas infantis.

Aí vieram as adolescências, e as duas começaram a se diferenciar, uma como Biscate, a outra como Santinha. A mãe de Biscate lhe ensinou importantes valores: deu-lhe de presente uma assinatura da revista Caras e outra da revista Hola. Biscate aprendeu assim a monitorar a vida amorosa e sentimental de cada membro de Família Real, e a se esbaldar a cada casamento real. Biscate sabia a ponta da língua quem era a Top Model do momento, e quais os atores mais gatos do Jet Set internacional. Aliás, Biscate aprendeu o significado de Jet Set.

Santinha até aprendeu um pouco com Biscate e sua mãe. Descobriu como cruzar as pernas fatalmente ao usar um vestido curto, e uma ou outra mesura de como se portar em sociedade. Também aprendeu o significado de Jet Set. Só não sabia qual a utilidade daquilo tudo.

Portar-se em sociedade, aliás, era obsessão da mãe de Biscate. “Comporta-te em casa como se estivesses em sociedade, e quando estiveres em sociedade te portarás como se estivesses em casa” era o lema dela. Ensinou a filha a caminhar corretamente, falar graciosamente, portar-se como uma dama.  E Santinha lá, só vendo o faire-semblant das duas.

Numa coisa as duas amigas ainda combinavam: ambas eram peruas. Curtiam se arrumar, se emperequetar, ficar horas fazendo touca de cremes hidratantes nos cabelos, e hena, e batons, e como usar sombras e efeitos de maquiagem e novos esmaltes… curtiam juntas o prazer de se arrumarem e de se sentirem bonitas. Mas mais uma vez, Biscate só pensava em Burberry, Louis Vuitton, Gucci, Dior e [complete a frase com todas as lojas com filial na Rodeo Drive, Beverly Hills]. Santinha, mais pé no chão, aprendeu a fuçar as araras das C&As e Renners da vida em busca de roupas legais.

Passaram no vestibular. Santinha, pra Federal; Biscate, pra Puc. E assim que descobriu finalmente ter entrado praquele onírico mundo dos ricos e poderosos, Biscate passou a esnobar e a fazer pouco caso da amiga, que ia pra faculdade de bermuda e chinelo. Olhava a outrora amiga com nojo e desprezo, e resolveu que Santinha não mais poderia fazer parte de seu exclusivo círculo de amizades.

Santinha ficou chateada, mas não teve tempo pra se abalar: descobriu o movimento estudantil, os protestos, as greves, e a quantidade quase inesgotável de homens lindos que habitavam o campus da Federal. Aprendeu a curtir o campus, a vida, as noitadas, e descobriu como tirar o melhor proveito de cada companhia sem se apegar muito. Desabrochou. Ralou. Noitou. Trepou. Baladou. Protestou. Militou.  Enfim, viveu. E virou uma biscate – do bem.

Não deixou de ser perua, mas sempre foi uma perua pé no chão. Aprendeu a trocar um batom MAC por cinco sombras Contém 1g, e voltar pra casa feliz da vida com a compra. Descobriu que era muito bom trabalhar pra sustentar a vida de peruíces e biscatágis.

Até que um dia, Santinha, agora biscate, apaixonou-se. Mas apaixonou-se dona de si. E casou-se. Com um Homem de verdade, companheiro nas horas do bem e comparsa nas horas difíceis. E os dois decifraram a estranha equação matemática do casamento, na qual 1+1 = 1 (mas o 1 resultante dessa soma é maior que os dois uns somados). E esse 1 grandão, somado, não pode anular os dois uns que se somaram. Como duas chamas de velas. Equação teoricamente simples, mas difícil pacas de se praticar.

Santinha manteve-se dona de sua vida, de suas vontades, de seus desejos, de seu corpo. Juntos formaram uma família não porque a sociedade assim exigia, mas porque os dois estavam afim. E curtiram muito a procriação.

Biscate também se casou, com o namorado ao lado de quem se exibiu em sociedade por mais de dez anos – como manda uma boa socialite. O casamento  não durou nem um ano – ele a trocou por outra. Casou-se de novo, e o marido que arranjou (ela aprendeu a arranjar marido, note bem) lhe deu três filhos. Até que um belo dia o marido pediu as contas. Arranjara outra.

Biscate e Santinha se reencontraram num desses encontros de ex-alunas. Santinha olhou surpresa para Biscate, tentando decifrar no que tinha se tornado a ex-amiga. Descobriu que a perua ainda estava lá, firme e forte. Mas ,tantos anos depois, viu que, ao final das contas, a Biscate jamais havia sido de fato uma biscate. Ela se tornara uma escrava das aparências. E, na verdade, não tinha uma identidade própria, mas uma existência aparente.

Biscate, com sua bolsa Louis Vuitton autêntica, alguns litros de botox na testa e duas babás a lhe ajudar a cuidar da prole a tiracolo, olhou novamente com nojo e desprezo para Santinha. Sentia-se superior àquela pseudo-perua que não tinha nada de grife, e que não sabia se portar em sociedade. E foi incapaz de perceber que Santinha trouxera consigo para o encontro do colégio um marido que admirava a mulher com quem se casara, e que tinha prazer de cuidar do filho enquanto a mulher curtia as (verdadeiras outras) amigas de infância.

Santinha finalmente decifrou alguns enigmas da vida:

1-      Mulher de verdade não se atém a rótulos. Faz o que curte e pronto.

2-      Mulher de verdade vive cada momento da vida intensamente. A sociedade que acompanhe – ou que se foda.

3-      Mulher de verdade não admira nem despreza ninguém – mas é admirada (ou desprezada) por todos que a cercam. Por ser intensa, verdadeira e livre, não se preocupa com o que os outros pensam dela – mas sabe que sua liberdade desperta amores, iras e invejas (haja sal grosso!).

4-      Mulher de verdade atrai Homem de verdade. Daqueles que não têm medo nem incertezas, estão prontos para admirar e conviver com Mulheres, e não fêmeas superficiais.

5-      Mulher de aparência admira e/ou despreza as outras mulheres. E sempre arranja um  homem qualquer, com letra minúscula, daquele tipo que sai no mundo arranjando mulher, pronto a trocá-la por outra, como se fosse uma bolsa Louis Vuitton fora de moda.

Finalmente, Santinha olhou a ex-amiga com a superioridade que a experiência lhe conferiu. E pensou, como uma boa biscate: “coitada, tá fodida e não sabe!” E voltou a curtir a vida que lhe pertencia.

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Christine Hynde é autora convidada e escreverá no Biscate SC sempre que quiser ou for convocada. Porque biscate também pode ser chique, mas ela é perua mesmo e cheia de frescuras. Vai vendo… 😉

Sobre Madrasta do Texto Ruim

Comporte-se, e eu não te juro hemorroidas!
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24 respostas para As peruas Biscate e Santinha – descubra quem, afinal, é a biscate

  1. paula. disse:

    adorei todo ele mas essa parte ctrl+c ctrl+v abaixo… uma bisca de primeira! *.* tão intenso… lindo!

    “Mas apaixonou-se dona de si. E casou-se. Com um Homem de verdade, companheiro nas horas do bem e comparsa nas horas difíceis. E os dois decifraram a estranha equação matemática do casamento, na qual 1+1 = 1 (mas o 1 resultante dessa soma é maior que os dois uns somados). E esse 1 grandão, somado, não pode anular os dois uns que se somaram. Como duas chamas de velas. Equação teoricamente simples, mas difícil pacas de se praticar.”

    parabéns pelo texto… beijos.

  2. mariposamorna disse:

    Olha, sinceramente, não curti muito não.
    Sabe, esse lance de falar “x de verdade” me incomoda e me irrita um tanto, sabem?
    Eu não gosto de colocar as pessoas em uma caixa.
    Tem dias que acordo mais biscate perua do que nunca.
    Tem dias, que não quero nem ver um baton na minha frente.
    Eu acredito que entendi a intenção da guest, mas ao mesmo tempo, fico pensando que classificar em qualquer caixinha é o que menos uma biscate faz.
    Olhar com qualquer tipo de superioridade (ou desprezo, que no fim das contas, é o mesmo), não é coisa de biscate, pra mim. Pra mim, biscate, perua, riponga, metaleira ou “periguete” (esta última, o reduto do preconceito de classe) é tudo igual. Chamar de “biscate” quem desde sempre se rendeu às regras do mundo, deste mundo hipócrita, que nos tolhe e limita, é limitar a biscatagem.
    Desculpa ai, mas não curti.

    • Christine Ellen Hynde disse:

      Eu te entendo. E ainda bem que vc sabe identificar as “caixas identificadoras”, e sabe pular de uma pra outra. Mas tem mulher q não sabe nem identificar essas “caixas”. E vivem uma vida superficial, de aparências… foi isso q eu quis dizer….

      • paula. disse:

        se reler o texto espero que possa ver com outros olhos… o significado talvez foi mais profundo do que simplesmente ser perua e passar ou não um batom… e se fomos colocadas em caixas, imagino que estejam bem abertas… =)

        • Luciana disse:

          Penso que a questão que a mariposamorna aponta é o risco de cairmos nos estereótipos: se você é ok, casa com um homem de verdade (eu ainda nem decifrei o que vem a ser um homem de mentira /o\)…se você casou com um homem que não é 100% é que você não é uma biscate gente boa. E se você permanece solteira, nem posso imaginar (como diria em Apocalypse Now: o horror, o horror), é porque não se é uma mulher de verdade, não está atraindo homens de verdade e por aí vai….

          Eu estou na vibe não julgar. Não julgar escolhas, modelos, opções. Não julgar as mulheres. Por serem biscates, esposas, monogâmicas, poliamor, fúteis, militantes, peruas, periguetes…não julgar, não comparar, não hierarquizar. Viver, gozar, sorrir já tá bom demais pra mim. E ir aprendendo devagarzinho que há tantos tipos de pessoas quantas pessoas existem. E que Biscate é o rótulo provisório pra dizer: somos muitas. Eu sou muitas.

          • Duas coisas me incomodaram muito durante o dia de ontem a respeito desse texto. Uma foi perceber que algumas mulheres que gostaram do texto entenderam as expressões “homem de verdade” e “mulher de verdade” mais naquele contexto da frase que originou esse blog coletivo e a revolta e posterior organização das biscates, que tem o sentido de ser “especial”, “não biscate”, porque biscate é uma mulher como todas as outras, não é “mulher de verdade”. Mas-porém-todavia-contudo, o sentido que a Christine quis dar a essa expressão, ao meu ver, foi mulher real de carne e osso — leia-se todas. Porque o exemplo oposto é uma mulher que parece ser fútil e viver uma vida de aparências (e não precisa ser perua pra ser e viver assim). Ou seja, quem aplaudiu o texto, me parece, o entendeu na contramão da proposta do BSC. Não é contraditório, isso? Buenas, a vida é contraditória também. Tanto que estamos aí nos apropriando com orgulho (sob o olhar duvidoso de muitas e muitos) de um termo pejorativo, e isso por si só já seria a síntese e o exercício da contradição.
            Segundo foi ver que quem não curtiu o post também não o divulgou, como se não quisesse ter seu nome-username-personalidade virtual associado ao texto com o qual não concorda e não se identifica. É um direito de cada uma/um só postar aquilo que gosta. Mas eu também posto textos e notícias com as quais tenho profundas divergências, e faço isso já chamando a atenção para a minha crítica e ressalvas justamente para provocar a polêmica e a discussão.
            Agora, depois de passado o dia-noite-madrugada — e de ter comido como um estivador (e não comido O estivador) porque essa era a minha fome e estar aqui jiboiando e pensando enquanto tomo um chá quentinho e conseguindo raciocinar melhor sobre tudo que me incomodou — e estar quase entrando outro post e outra discussão, percebo que perdemos uma excelente oportunidade de debatermos, entre nós que fazemos coletivamente o BSC e nossas(os) amigas(os) leitoras(es), sobre o perfil e papel do blog e podermos finalmente concluir e publicar o Manifesto da Biscatagi (QUE CONTINUA LÁ NO GDOC, EM ABERTO, ESPERANDO REDAÇÃO E CONCLUSÃO).
            É bacana criticar o preconceito, mas não é bacana criticar o preconceito a partir de outro preconceito. Eu confesso de público (porque sou minha mais ferrenha crítica e porque assumo meus defeitos na boa) que sou péssima editora. Passei a vida toda defendendo a liberdade de expressão e o direito de cada uma/um a manifestar sua opinião como bem achar que deve. Pois, bem… O texto da Christine nada mais é do que a expressão do seu pensamento e vivência e pode não estar 100% de acordo (ou menos de 50%, ou 30% ou 87%) com a linha editorial do BSC (que ainda nem bem acertamos e nem divulgamos ainda), mas nós poderíamos ter aproveitado ele para debater sobre o assunto fraternal e solidariamente, sem deixar de enfiar o dedo na ferida das contradições. Penso que será essa a melhor forma de consolidarmos a proposta do BSC e conseguirmos inverter o jogo dessa classificação sórdida das mulheres entre biscates x especiais, que é só mais um viés da normatização de nossa sexualidade e a punição das mulheres que a exercem livremente.
            Queria ter visto tanto a Lu quanto a mariposamorna divulgando o texto nas suas redes com um NÃO CONCORDO bem grande em cima e dizendo o porquê. Ganharia o BSC, ganharíamos todas nós, biscates múltiplas amplas gerais e irrestritas com o debate.
            Bóra parar de melindres bobos? A Christine Hynde, tenho certeza — como toda blogueira, biscate e mulher que se expõe diariamente –, está preparada para enfrentar as críticas e respondê-las.
            Não acho que precisemos concordar ipsis litteris com todos os textos e autoras do BSC, mas acho que devemos levá-lo adiante. Fui forjada na contradição e acredito nela como a mola propulsora de todo crescimento.
            E desculpem-me se me alonguei.
            Beijos!

          • Christine Ellen Hynde disse:

            Niara,
            1- Magiiiina! Se alongar, você? Nem deu pra perceber… 😛
            2- Acho que o erro aqui foi meu por me expressar de forma incorreta. P9orque se tanta gente interpretou uma coisa que ue não escrevi, cacete, o erro foi meu por não escrever direito. O que eu quis passar foi o seguinte: A Santinha foi “libertada” da amiga superficial, e desabrochou para a vida. Aprendeu a viver e a curtir sua vida sem aceitar rótulos ou imposições de comportamento. Percebeu as “caixas” onde ela poderia ter sido enfiada pelas imposições da sociedade e da vida, e aprendeu a passear por entre elas. E, anos depois, ao reencontrar com a ex-amiga, percebeu do que escapou. Percebeu o quanto superficial a ex-amiga sempre fora, e como essa opção a faz viver pouco…

            Com esse texto, tentei expor as diferenças entre uma mulher que se enquadrou nos padrões de sociedade e outra que soube viver por conta própria – e no meio do caminho, até encontrou seu companheiro de vida – mas quem “um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração, e quem irá dizer que não existe razão”. Quedizê, ela poderia não ter cruzado com aquele cara – mas aquele cara sabe reconhecer nela uma mulher incrível (e, por minha linha de raciocínio, uma mulher de verdade – ainda que uma mulher de verdade seja uma mulher não-crível, quer dizer, não dá pra acreditar que ela exista. Oi? Quem disse? Eu disse! Quem disse eu? Eu disse eu!

            Enfim, espero que as diletas companhêra-biscate agora entendam o sentido do meu “mulher de verdade” e de “homem de verdade”. Reconheço serem expressões genéricas, que podem ser trabalhadas e batidas ao gosto do freguês (há quem diga que mulher de verdade é aquela que tem Jesus em seu coração, afirmação que suscitará de muitas daqui a indagação: “Uia! E esse Jesus é saradão e gostoso?”, mas deixa isso prá lá, né?)

            Enfim, é isso. Espero que agora eu tenha me feito entender….

            Abraços,
            Christine

        • Christine Ellen Hynde disse:

          Isso, isso, isso! A Paula pegou o espírito da coisa!!! Foi a Santinha que se desrotulou totalmente na vida e desabrochou – virou biscate! Enquanto a Biscate, ao se super-rotular, encaixotou-se, e deixou de ser uma PESSOA de verdade, passou a viver de aparências!!!

  3. Ahhh… Esqueci de dizer algo muito importante. Também não gosto da expressão mulher de verdade, apenas ACHO que entendi o contexto e sentido que foi usado pela Christine. Com o tempo a gente aprende a se livrar das expressões que reforçam estereótipos. Falar em mulher de verdade, infelizmente, reforça aquele sentido da frase que originou o BSC (“os homens mais inteligentes são aqueles que se deram conta de que mais vale uma mulher incrível ao lado do que uma coleção de biscates” — ‘atribuído’ à Martha Medeiros). Essa história de que os homens escolhem, os homens identificam, os homens encontram, os homens querem, os homens se deram conta, os homens, os homens… com relação às “mulheres de verdade” e “incríveis” (leia-se não-biscates, não-comuns, não-normais, não-reais) só reforça a ideia de que somos coadjuvantes no processo de escolha, que somos objeto na prateleira.
    Temos o direito tanto de escolher como de se deixar escolher ou mesmo de escolher fingindo que nos deixamos escolher. Literalmente cada uma sabe de si e só irá despertar para a opressão que é esse ser “especial” e ser “mulher de verdade” quando o seu calo apertar. E cada uma tem o seu tempo. Mas a questão fundamental aqui é não reforçar o estereótipo, que julga, que acusa, que pune as biscates.
    Fofa e linda a história da Christine com o marido dela, mas se eu for aplicar o conceito de mulher de verdade na minha vida não conseguirei ficar classificada nem como mulher de mentira, vou simplesmente virar pó de traque.
    EU NÃO QUERO ser incrível para ser escolhida por um homem. Sou incrível e não, especial e não, bonita e não, biscate e não para decidir eu mesma a minha vida e as pessoas com quem me relaciono. E não estou dizendo que a Christine disse isso no texto dela, estou apenas pontuando o que acho que devo no texto.
    (me alonguei de novo, né? ê, laiá…)
    Beijo!

  4. renatalima91 disse:

    Olha, meu problema com o texto, que está super bem escrito, e é bem legal, a história, quer dizer, foi o mesmo da Lu e da mariposa.
    Acho que no finalzinho, deu umas escorregadas, e eu interpretei sim, como se o “mulher de verdade”, ainda que a mulher de verdade no caso fosse a biscate, fosse em oposição às que não são especiais, o que quer que isso seja.
    Deixa eu elaborar:
    me pareceu que a divisão “mulher de verdade (incrível, real, etc)” vs “biscates, periguetes, vadias, etc” foi invertida, mas só na forma, porque o conteúdo continuou similar, entendem?
    Só que agora, a Santinha-Biscate é que é a “mulher de verdade”, a que merece o prêmio combo marido-homem-de-verdade.
    Lendo agora, de novo, e depois que outros já fizeram os comentários, e que a autora também veio e se manifestou, percebo que há uma ressalva no texto, a de que “Biscate jamais havia sido de fato uma biscate”. Só que isso fica perdido no texto, porque o tempo todo, está lá a divisão “biscate” vs “santinha”, e a mesmo que no final a santinha se revele a biscate, sei lá… Me deixou meio encucada tb.
    E, claro,o fato de ser uma história fictícia, baseada ou inspirada, em fatos reais, me deixa um pouco desconfortável para comentar ontem.
    Reafirmo: creio que o manifesto da biscatagem, que começou como uma brincadeira, e já virou blog, bem acessado, pelo que vejo, deveria ter, como parágrafo, inicial: abaixo todo e qualquer preconceito, pre-julgamento.
    O final, na última frase, foi …”Finalmente, Santinha olhou a ex-amiga com a superioridade que a experiência lhe conferiu. E pensou, como uma boa biscate: “coitada, tá fodida e não sabe!”… olhar com superioridade, como já disseram aí, implica em fazer um julgamento, né? Claro, fazemos julgamentos o tempo todo, e a Santinha realmente conhece a Biscate-Falsa-Biscate, logo, tem um conhecimento de causa, então, não seria assim, um pre-conceito, um pré-julgamento. Ainda assim… é um julgamento, sobre as escolhas, sobre os desejos do outro. Acho limitador, em certa medida.

    E, Niara, não entendi essa fala “É bacana criticar o preconceito, mas não é bacana criticar o preconceito a partir de outro preconceito. ”
    Em que sentido vc se manifestou? Quem manifestou preconceito nos comentários?

    bjs a todas!

  5. Confesso que não gostei do texto. E, assim como outras já manifestaram, vejo como uma tentativa de definir o que é mulher de verdade e o que é mulher de mentira. Como se uma fosse melhor do que a outra, como se coubéssemos em definições tão simplórias.

    E não concordo com voce, Niara, sobre a turma “ter” que divulgar um texto com o qual não se identificou, mesmo que seja para criar um debate, etc. Lembro do texto das “mamíferas” no site da Lola. Eu não divulguei, pq não concordei 1% com ele e achei tão fora da realidade que nem tive vontade de debater a respeito. Idem para este.

    Bjs

    Dri

    • Christine Ellen Hynde disse:

      Adriana,

      Já fiz outro comentário sobre o “mulher de verdade”. substituam-no por “mulher incrível” ou “homem incrível”. Vai ser outro rótulo, mas que se há de fazer? O contraponto é entre 1 mulher que optou enquadrar-se nos padrões de sociedade e tornou-se superficial, outra que libertou-se dos estereótipos e vive sua liberdade – e aqui não são rótulos, mas opções de vida.

      Bêj,
      Christine

  6. Marília Moscou disse:

    Caramba, eu só cheguei agora. Que biscate atrasa néam?
    Li o texto, fiquei com um incômodo e não sabia bem qual. Talvez pela mesma sensação da Niara, de péssima editora, de considerar a experiência dela e tal. Mas aí vieram vocês e traduziram o incômodo que eu senti. A expressão mulher de verdade, como tínhamos começado a partir dela (ou vocês tinham que eu como biscate me atrasei pro social club também, claro), ficou meio esquisita ali. Também senti um julgamento implícito em alguns trechos e isso não achei bacana. Mas aí fiquei pensando – no meu texto acho que também tinha um pouco de julgamento e não só com os coitados dos pastéis e tons-pastel, mas com as pessoas que se fecham nessa pastelagem da qual eu falei. MAAAAS, por outro lado ainda (porque só dois lados não é nada realista, afinal de contas), a própria proposta do biscateSC é de certa forma um julgamento. Não? Não julgamos que a liberdader sexual – e inclusive a atitude de não julgar – é melhor, mais bacana, etc. do que a não-liberdade sexual e a atitude de julgar e punir? Porque né, senão qualquer coisa poderia ser enquadrada na biscatagem. Pergunto: pode???

    • Luciana disse:

      Não, Marília, eu não julgo que ser liberada sexualmente é melhor do que não ser. Melhor pra quem? Eu apenas afirmo que da minha vida, do meu corpo, dos meus planos, falo eu. Eu acho que há uma diferença essencial entre os tons pastéis como eles ficaram no seu texto (depois que a gente conversou) e a divisão que se apresenta neste texto aqui. Acho que podemos e devemos discutir a legitimidade de que alguém – geralmente um homem – deseje que a uma mulher se enquadre no modelo a, b ou c…tipo ser pastel ou ser biscate. ISSO eu discuto. Mas eu não discuto, julgo, avalio, hierarquizo, classifico que uma mulher, uma pessoa viva de forma a, b, c…ou z. A vida de cada pessoa, isso é discurso, materialidade e significado dela. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Pra mim, O BiscateSC é um lugar de encontro de diversidades. Uma forma lúdica de dizer que não há como classificar nem fazer relações de causa-efeito, se A —> então B.

  7. renatalima91 disse:

    Marília,
    é isso, também, né?
    A gente faz julgamentos, o tempo todo, com certeza.
    A gente faz escolhas, e escolhas são também renúncias.
    Se escolho X posso ter que abrir mão de Y.
    E para decidir por X Y ou Z, certamente, farei um juízo de valor sobre os objetos da escolha.
    Acho que por isso me senti tão desconfortável para comentar.
    Porque meu comentário também seria um julgamento.
    Quero é crer que os parâmetros desse julgamento cotidiano, dessas escolhas diárias, possa ser alterado, vc não acha?
    O juízo de valor vai existir. O parâmetro do que é o valor é que pode ser modificado, como vem sendo. Apresentando todos os lados, ou ao menos, tantos quanto conseguirmos.

  8. Vevê disse:

    Acho complicada a carga de julgamento em cima da personagem da Biscate, totalmente polarizada. A Chistine deu pistas de porque ela seria superficial: usou litros de botox, tem babá, gostava de roupas de marca. É por isso que ela é superficial? Por que ela não pode ser uma mulher incrível, “de verdade”? Ela não sofre, não sonha, não deseja, não tem suas contradições? Cara, comprar batom da Mac ou 5 sombras da Contém 1g não explica o caráter nem a personalidade de ninguém. Será que a loca das 5 sombras e apenas um par de olhos não é mais consumista do que a outra que comprou um batom pelo qual se apaixonou? E se o marido largou a Biscate para ficar com outra, a culpa é dela?

    A Santinha usa roupa da Renner feita com trabalho escravo, foi para a militância (que às vezes é umbiguista e cruel para caralho), ia de bermuda e chinelo para faculdade. Ir com roupa simples para algum lugar mostra o que sobre a pessoa? Que ela não liga para aparência? Mas não é a mesma que o texto diz que também é perua? Ela é profunda exatamente por qual motivo?

    As duas se julgam em diferentes momentos do texto. O julgamento da Santinha é validado, o da Biscate é moralmente inaceitável, descrito de forma meio nojenta até, para criar repulsa pela personagem. Aí fiquei com a sensação de que é um texto muito moralista, pregando um estilo de vida como superior. As escolhas da Biscate não são explicadas por uma superficialidade interior, mas ela é tachada de superficial. As escolhas da Santinha também não são explicadas por sua motivação interior, então no meu entender, como personagem, ela é igualmente oca.

    Olha, eu fiquei o texto todo torcendo pela Biscate. Essa pessoa com dores, sofrimentos, angústias, perdas. Eu achei ela mais dramática, possível e humana que a Santinha, que vive um comercial de margarina liberal. Como personagem, é mais profunda.

    • Christine Ellen Hynde disse:

      Biscate tornou-se superficial pois foi “adestrada” pela mãe a ser superficial. E aceitou ser “enformada” desse jeito.
      Santinha optou por viver a vida por conta própria, a despeito de todas as tentativas de fazê-la se comportar dentro de padrões preestabelecidos.

  9. Sheila Camargo disse:

    Seria exagero declarar que há muito que não lia algo tão… tão… tão… (até me faltam as palavras) adorei, achei lindo, massa, sensacional… e seria um exagero ainda maior afirmar que quase me fui às lagrimas, ou será que ando sensível demais… hauahuahau

  10. Iara disse:

    Eu não comentei o texto nem divulguei nem nada porque vou ser muito honesta: me incomodava mas eu não conseguia verbalizar. Porque entendo o argumento da Niara, mas acho que pra divulgar algo que nos incomoda no mínimo a gente precisar ter claro qual é o incômodo. Mas daí Vevê veio aqui e fez isso brilhantemente. Brigada, Vevê!

  11. Caramba, eu gostei do texto e ponto…
    não tenho capacidade mental para me arriscar nas discussões mais ferrenhas
    em torno da realidade que as cerca, até pq
    sou uma simples leitora e fã do blog, e como tal muito timidamente venho me expressar e pela primeira vez.. mas enfim… curti… divulguei na minha rede… achei profundo a inversão de papéis, daquela q só queria estudar e ser santa e se descobriu biscate, liberal, casada e feliz e a biscate que não sabia o que queria ser e se detonou pq não encontrou sentido pro seu lado biscate de ser…a choq é por aí!!!
    Beijinhos, Carol

  12. Amanda disse:

    Ok, vou deixar meu pitaco – porque quem ama comenta. 😉 Talvez não tenha sido a intenção da autora (é, acho que não foi) mas o fato é que eu fiquei com a estranha sensação de que algumas biscates são mais biscates do que outras. Hierarquizar biscates não é bem a proposta do blog, né? Como alguém ja disse aqui, achei a personagem perua muito mais profunda… Aliás, porque ser largada por um homem é ser menos biscate? Aliás, por que mulher de verdade atrai homem de verdade? Conheço tantas mulheres de verdade que, sei lá, atraem homens interessantes que se revelam chatos, ou que atraem outras fêmeas ou sei lá, a vida é cheia de surpresas, às vezes a gente atrai pessoas que no fim revelam que nada têm a ver com a gente. É da vida! Enfim.

  13. Pingback: Sexta-Feira 13, dia oficial da Biscate |

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