Um olhar, de biscate

GUEST POST, por Maurício Alves*

Uma das coisas que mais me marcou nesses quarenta poucos anos de vida certamente foi o encontro tão inesperado quanto isso pode ser com uma mulher que virou minha vida pelo avesso. O que ela tem de tão diferente assim e que justifica um artigo para um blog que possui como temática a mulher, e mais do que isso, uma mulher que é dona de si e do seu corpo, do seu nariz e das suas vontades?

A resposta para isso está no título e no significado que ele tem pra mim. Em um olhar que já foi definido por um amigo como “frechada” (ê Minas!) diante de uma foto dessa pessoa. Que eu sei muito bem que expressa desejo, bem como eu sei que, se eu fosse colocar uma fala na foto, certamente seria “eu quero.” Este que vos tecla, meus caros, se deixou sucumbir totalmente por uma mulher que, do alto dos seus 30 anos (que podiam ser 20 ou 55) é senhora dos seus desejos o suficiente para escolher o homem que lhe agrada em meio a tantos outros e, mais do que isso, confessar essa escolha e esse sentimento diante, literalmente, do mundo.

Quando ela afirma seu desejo diante de quem quer que seja, ela sem o saber desafia homens que pagariam para que ela não o fizesse. Que dariam qualquer coisa para que a sua beleza fosse também silenciosa e docemente submissa. Não por algum tipo de fetiche, mas porque para eles sempre foi mais fácil se impor perante as mulheres. Se pudessem, talvez pedissem desculpas por não saber amar de outro modo que não aquele que impõe que subjuga que domina e que silencia.

Se me perguntassem se eu a defino de alguma maneira por se comportar assim, a resposta seria ambígua, um sim e não muito mal explicados. Mas eu sei perfeitamente que, quando ela se afirma desse modo (e eu aqui não faço diferente, afinal tenho que fazer jus a ela) acaba por representar, sem o saber, toda a sua geração. Uma geração de mulheres que está ocupando as ruas do mundo com a mesma autoridade e ousadia com que lançou um grito de ocupação do próprio corpo nos anos 60 e 70.

Não por acaso, o homem que surge como resultado de uma sociedade na qual a mulher tomou as rédeas de seus desejos e afirmou suas escolhas é alguém, a princípio, medroso. Uma pessoa que oscila entre a aceitação passiva disso como se não tivesse a prerrogativa de dizer “não” e o macho alfa que tem a obrigação de ser o sujeito ativo de todas as relações nem que o preço disso seja o silêncio do desejo da parceira. Tempos difíceis esses para o gênero masculino, nos quais lhe é dada a opção de responder àquela mulher que o quer com um “sim” ou um “não” ambos carregados do mesmo significado: “eu reconheço seu desejo”.

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* Maurício Alves é jornalista, mineiro de Belo Horizonte e está na web desde a época em que o relacionamento homem-mulher começava pela internet. De verdade.

Sobre biscatesocialclub

"se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim..."
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3 respostas para Um olhar, de biscate

  1. Pingback: O clichê « Leticia Orlandi

  2. Pingback: Sexta-Feira 13, dia oficial da Biscate |

  3. Amanda Montenegro disse:

    Maravilhoso o texto 😉

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