Sala de aula, maternidade e tanta vida pra viver

Por Andréa Moraes*, Biscate Convidada

Uma das notícias mais compartilhadas nas redes sociais durante a primeira semana de março foi a do professor da UFRN que censurou a aluna por levar sua filha pequena para a sala de aula. Não vou escrever sobre o que eu acho da sala de aula, se é ou não lugar pra criança: esse não é o tema aqui. Como professora de universidade, já recebi algumas vezes alunas com seus filhos em minhas aulas e nunca tive problemas com isso. Não me recordo nem de ter ficado inquieta com o assunto, embora ache que a creche pública é das coisas mais fundamentais que qualquer sociedade deve prover aos seus cidadãos. Mas não é sobre isso que eu quero falar.

Fiquei foi pensando nessa vida que temos: parir e criar filhos, trabalhar, estudar, e todo o resto. Fiz meu doutorado grávida. Juca nasceu no primeiro ano do curso. Engravidei por escolha própria e sabia que estava topando a tarefa árdua de criar um menino, fazer uma tese e trabalhar (só tive licença parcial do meu trabalho). Tinha condições de financeiras de bancar uma creche, tinha uma trabalhadora doméstica que fazia todo o serviço da casa, minha mãe vinha algumas vezes me dar um help; a boa e velha rede feminina. Eu e o pai do Juca nos separamos quando ele ainda era pequeno, mas o período de guarda compartilhada também contribuiu para desafogar a agenda da semana. Enfim, dadas as condições objetivas, deu pra fazer tese, trabalhar e me dedicar ao filho. Fiquei cansada? Fiquei. Me arrependo? Não. Bem, mas essa sou eu, e eu não sou parâmetro pra nada. Aliás, ninguém é, embora nesse mundo das redes sociais as pessoas tendam a achar que suas vidas privadas são a régua universal.

Nem todo mundo engravida de forma planejada, como advoga a cartilha da maternidade competente. E não é porque as mulheres são desmioladas, há uma série de motivos que podem levar a uma gravidez em um momento da vida que não é considerado ideal. Não pretendo me estender sobre isso aqui. Uma vez mãe, com seu bebê no colo, a vida segue: tem trabalho, tem vida social, tem estudo, tem a pessoa além da mãe. Esse talvez seja o nó da questão. Tem uma pessoa que é mais do que “a mãe de”, está para além da “mãe de”, e vivemos em um mundo onde essa ideia da individualidade da mulher é um obstáculo tremendo. A negação da condição de sujeito da mulher é, no fundo, a raiz do incômodo com as crianças circulando no espaço público. Para ter seu filho consigo em sala de aula, a aluna tem que fazer referência à sua falta de condições para pagar creche ou à ausência de vagas em creche pública, tem que dizer que está sozinha ou que o pai da criança também tem suas obrigações (e ele é, obviamente, considerado um indivíduo pleno, enquanto ela não é), tem que afirmar todas as suas faltas e carências para poder viver para além da maternidade. É um paradoxo, como já dizia Joan Scott, ao lembrar que o feminismo assenta sua história na exigência de afirmação da diferença pra poder conquistar a igualdade.

Nós, mulheres, vamos assim: vivendo nossas vidas paradoxais, testando os limites do que é ser indivíduo no mundo. Precisando marcar a diferença, na luta para sermos vistas como iguais.

  AndreaMoraesNova*Andrea Moraes é carioca, pisciana, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

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Marielle, Anderson e o Brasil com “s”

Há, no assassinato de Marielle e de Anderson, uma dimensão que não podemos esquecer.

As duas mortes simbolizam, acima de tudo, a morte de um Brasil, com “ s “. Um Brasil negro, periférico, pobre, que luta, sorri, cria filho, trabalha, dança, faz política.

Esse Brasil é odiado por um outro Brazil, com “ z “. Um país vassalo, aculturado, branco, iludido com a concessão ao café da manhã. Mas este Brazil com “ z “ odeia também admitir que odeia o Brasil com “ s “. E finge ser. Finge que a empregada doméstica é da família, finge que “office boy” tem a oportunidade e que não a aproveita por responsabilidade própria, finge que não se incomoda com o FGTS do empregado doméstico, finge que os vestibulares selecionam os mais aptos, independentemente do trajeto anterior. Finge, porque no fundo no fundo tem vergonha.

Odeiam, outros, este Brasil com “ s “ por sadismo. Uma estranha máquina de ato reflexo o faz ter um gozo com a desgraça de quem não consegue, considerando que conseguiu algo por ser melhor que o outro. Num mundo onde haja flanelinha no farol há sempre aquela satisfação do ego: eu venci e ele, não. Independentemente da miséria que é este “vencer”.

Odeiam, outros e muitos, porque tem medo. O medo, sabemos, é uma praga que se prolifera na água: medo do gozo, medo do amor, medo da entrega, medo do torpor, medo de perder o emprego, medo de ser igual. Nasce deste medo o fascista. O fascista odeia o Brasil com “ s “.

Sugiro, sempre e sempre, que essa gente que odeia o Brasil, com “ s” , que ouça Argemiro Patrocínio, Nélson Sargento, que beba cachaça, que ame sem roupas, que leia Machado, Ferrez, Mano Brown, que coma dobradinha, que cheire loló. Que saiba de Grande Otelo, de Pele, Garrincha e Didi. De Zumbi. De Milton Santos. De Dona Menininha. De Clementina. De Abdias. De Luiz Gama.

Sugiro, sempre e sempre, que dê chance ao samba, ao choro, ao Pixinguinha e à mandioca. E que tome banho pelado em rio. Que ande pelado.

Este Brasil com “ s “ é nossa única chance civilizatória. É ele que nos molda, nos aponta, nos sapienta.

Esse Brasil morreu mais um pouco. Foi executado. Assassinado. Nosso silêncio é gatilho também.

O assassino não é só quem deu os disparos. Este Brazil com “ z “, arrogante, subalterno, mesquinho, covarde e medroso alimentou esse gatilho.

Basta. Não à toa, palavra que tem o “ s “ bem ali, ao centro de tudo.

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Marielle Franco

“Sentimos que nunca acaba
de caber mais dor no coração”

É difícil, pra mim, neste momento, falar sobre Marielle, sobre seu assassinato, sobre sua ausência. Eu não a conhecia pessoalmente. Sequer sou do Rio de Janeiro. Mas eu conheço e amo gente que a conhecia e a amava. E ainda, conheço e amo as idéias que ela defendia e, suponho, amava também. Acompanhei sua campanha, acompanhava seu trabalho como vereadora. Admirava, encantada, como ela conseguia ser o que parece impossível. A perda de Marielle cala fundo, mas o blog não podia silenciar sobre. Escrevo.

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Pra começar, dizer que penso que não devemos abrir mão de uma leitura interseccional do mundo, das violências, das vivências – incluindo esta execução. A execução de Marielle Franco. Por exemplo, entendo que ser negra e socialista tem relação indissociável neste assassinato. Acho bem fácil uma outra figura negra proeminente, porém não ativista, ser vítima de racismo, incluindo danos decorrentes de ações da policia, por exemplo – ignorantes da sua identidade. Mas acho bem difícil essa pessoa vir a ser executada, da forma como Marielle foi, por ordem de quem foi (tão mais parecido, o crime, com o assassinato da juíza Patrícia Acioli) sem defender as idéias que ela defendia, sem lutar como ela lutava, sem se posicionar quando e como ela se posicionava: a partir das bandeiras do seu partido, o PSOL.

Compreendo que Marielle foi assassinada por ser quem era. Isso inclui sua negritude. Inclui suas idéias socialistas. Inclui sua atuação parlamentar. Inclui sua personalidade vibrante. Inclui o tipo de família que formou. Inclui as pautas que abraçava, os trabalhos que fazia, os lugares que frequentava. Inclui seus sorriso luminoso, sua presença hipnótica, sua clareza de argumentação. Inclui o fato de ela se definir e se alinhar com pessoas vistas como esquerda. Sabe aquela frase do Montaigne sobre o amor: “porque era ele, porque era eu”? Ela foi assassinada, penso, para não ser mais. Porque ela era imensa. E acho triste (e improdutivo), depois de termos perdido tanto, perder um aspecto que seja dessa mulher tão grande.

Essa dolorida compreensão me faz lembrar e afirmar sua existência única e irrepetível. Por mais bonito e confortador que seja a idéia de transformar este momento de perda e dor em inspiração e resistência, eu recordo e reafirmo a vida própria de Marielle. Ser um símbolo não é melhor que seguir vivendo. Vejo esta tirinha abaixo e me dói.

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Quando eu tinha 16 anos e participava de grupos de Pastoral da Juventude do Meio Popular, me comovia com a frase de Dom Oscar Romero: “se me matarem, ressuscitarei nas lutas de meu povo”. Eu era jovem e boba, desconhecia que isso não basta. Não devíamos ter ou ser mártires, devíamos ter e ser companheiros. Vivos.

Porque por mais que se insista na permanência dela em nossa própria vida, a vida que era dela, a vida que era ela, não mais. A vida dela. Dela. A filha dela, a namorada dela, os desejos, sonhos, o mestrado, as cervejas dela. A fome dela, as roupas dela, a risada dela, o abraço dela. As dores dela, as dúvidas dela, as alegrias e conquistas dela. Dela. Ela. E nunca mais. Nunca mais nada disso. Ah, luciana, mas é no aspecto político. Pois também não. Quanto tempo leva pra surgir um quadro como Marielle? quantas mulheres são eleitas? quantas mulheres negras? quantas mulheres negras, de esquerda? quantas mulheres negras, de esquerda, bissexual ou lésbica?

Que lutemos as lutas de Marielle. Que apoiemos outras mulheres negras na política. Que não esqueçamos sua morte. Que balancemos suas bandeiras. Que sonhemos, juntos, seus sonhos. Mas Marielle, mesmo, nunca mais. Por mais presente que ela esteja na vida de quem a amou, de quem sonhou com ela, de quem lutou com ela, por mais presente que esteja em quem a respeitava, admirava, quem compartilhava pautas e utopias, Marielle, mesmo, nunca mais.

Não podemos, acho, não devemos, penso, esquecer disso: a perda é insuperável.

É essa vida que não vai ser vivida que dói tanto que não deve ser esquecida. Que a morte de Marielle seja inspiradora me parece muito triste. Não quero inspiração, quero-nos vivas.

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Um bombom no 8 de Março

Por Mary W, Biscate Convidada

Sempre há uma confusão no Dia Internacional da Mulher. Porque, nós, feministas, reclamamos das rosas, bombons, parabéns. E isso parece antipático. E as pessoas não entendem mesmo (ou fingem nao entender).

Não queremos mimos porque não é o caso. Mais do que isso, reforça que nós, mulheres, temos que ser mimadas e cuidadas. E essa visão é machista e hipócrita.

O mundo não “cuida” da gente. Antes, nos exclui de tomada de decisões importantes. A luta pela autonomia econômica e psicológica da mulher é fundamental para que ela não se sinta dependente e inútil quando o casamento acaba, por exemplo.

São inúmeros os casos de mulheres que ficam completamente perdidas na meia-idade com o fim do casamento.

Não gosto também das mensagens publicitárias. Que nos chamam de “guerreiras”. Não quero ser guerreira. Quero viver minha vida com igualdade de direitos. A “guerreira” é aquela que tem dois empregos porque cria os filhos sozinha. Cadê o pai? Tá devendo pensão alimentícia, muito provavelmente. Maternidade como sacrifício é algo a ser combatido. A “guerreira” só existe porque o mundo é desigual.

Da maternidade vêm também as mensagens que contribuem para demonizar nosso direito ao próprio corpo. A gravidez da mulher é assunto coletivo. E o direito ao aborto nosso maior tabu. Essas mensagens visam manter a gente nesse sacrossanto lugar. Da mãe que abre mão de si mesma.

A gente não precisa mesmo de rosa e bombom. Eu compro meus bombons (ou ganho da minha namorada). Não preciso de mimo num dia que é de luta.

Eu quero que chefes parem de me assediar ou de alisar meu ombro em eventos profissionais. Quero poder andar na rua sozinha sem medo de homem. Quero que minha orientação sexual seja respeitada. Quero interromper uma gravidez indesejada. Quero ganhar um salário equivalente aos homens. Quero que as profissões femininas sejam respeitadas. Quero deixar de confundir abuso e ciume com amor.

Quero tudo isso. O bombom pode comer você. Já almocei.

28870551_10156096082799259_6061432163104980992_nMary W é feminista e se isso não é tudo, é tanto. Um jeito de ver, dizer e sentir o mundo. E mudá-lo. Dá pra ler o que ela pensa, no seu blog: link aqui. E pode-se ansiar por uma conversa no bar – é sucesso.

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O dia 8 de março e uma certa conivência

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

No dia 8 de março eu gostaria de falar sobre uma palavrinha sobre a qual eu tenho refletido muito: conivência.

O machismo que destrói mulheres e impacta nas vidas delas não é apenas o machismo ativo, do homem que bate, silencia, interrompe, viola, assedia. É também o machismo da conivência.

Os homens tem um privilégio que é muito sutil, que é o privilégio de não se importar com essas violências que impactam as mulheres.

Eles não mandam a piadinha grosseira no whatsapp, mas não reclamam.

Eles vêem o amigo no trabalho roubando ideias, ganhando mais, e não falam nada.

Eles vêem o projeto massa da mulher e não divulgam, porque afinal, aquilo ali não tem a ver com eles.

Eles não entram no grupo de whatsapp da escola do filho para participar da vida escolar, e tudo bem só as mulheres estarem por ali, com toda a carga mental.

Eles sabem do vizinho que agride a companheira, mas “isso é coisa de marido e mulher” e não têm cu de ligar no 190.

Na rodinha do pós-futebol ouvem em silêncio todos os relatos de assédio que os colegas fazem, mas como eles próprios não fazem… pra que se estressar?

Não se posicionam quando rola um debate sobre estupro, assédio e aborto, afinal não é no seu corpo que isso rola.

Tudo que um machista precisa é de um ambiente seguro para se manifestar e que suas crenças sejam reforçadas.

Tá com medinho de perder os amigos? Medinho de ser tachado de mala? A vida das mulheres tem muito de ajustar seus círculos de convívio e afeto para não passar mais por violências.

Nós mulheres não temos a opção de ficar caladinhas. A opção de passar incólumes. Quando a gente silencia é por medo de agressão e sanção social e engole esse sapo emocional que nos corrói. Ou então a gente fala, correndo o risco de ser agredidas, violadas, demitidas, rebaixadas, ridicularizadas, tachadas de chatas, intolerantes, inconvenientes.

Se você, homem, puder fazer alguma coisa para contribuir para a igualdade de gênero, a coisa é essa: não seja conivente com o machismo que você percebe ao seu redor. Mude o clima do ambiente. Divida essa tarefa e essa carga mental, física, espiritual, emocional com as mulheres. Se posicione também. Quem cala consente, sabe? É cúmplice também. Não seja esse cara, para que nós possamos ser as mulheres que podemos e queremos ser.

 renata-corrc3aaa1Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

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8 de Março é dia de quê?

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Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil.

38% dos assassinatos de mulheres são cometidos por seus parceiros, estando as mulheres negras mais sujeitas à agressão por cônjuges e ex-cônjuges do que as mulheres brancas;

1 em cada 3 mulheres no mundo sofreram violência física e/ou sexual ao longo da vida;

No Brasil, mulheres recebem salários 30% inferiores aos dos homens;

O salário mensal médio de uma mulher negra é cerca de R$ 1,5 mil menor do que o salário médio de um homem branco, tendência que se manteve inalterada nos últimos 20 anos;

Mulheres e meninas fazem cerca de 2,5 mais tarefas domésticas que homens e meninos, além de continuarem responsáveis pela maior parte dos cuidados não remunerados;

O Brasil é o país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo, a expectativa de vida delas é de apenas 35 anos – menos da metade da média brasileira.

No Brasil, 4 mulheres morrem, por dia, em hospitais, por complicações de interrupção da gravidez porque aborto é criminalizado.

Entre 2014 e 2017, no Brasil, 126 mulheres foram mortas por serem lésbicas.

Em Portugal, apenas 15% das ruas com nomes próprios apresentam nomes de mulheres, isso é um reflexo do apagamento das mulheres na História. No Brasil de uma amostra de 389 rodovias, apenas 8 (2%) têm seus nomes dedicados a mulheres. Seguindo a lista, homens ainda dão nome à maior parte das viadutos (88,2%), avenidas (87,1%), parques (86,9%) e praças (85,4%). Enquanto nomes femininos têm participação um pouco melhor, sem nunca chegar a 30%, em vilas (29,6%), passagens (27,2%), escadarias (24,3%) e vielas (24,0%).

No mundo, 8 mil mulheres estão em risco de sofrer mutilação genital diariamente.

A previsão é de que demore 217 anos (de mudança contínua, se tiver retrocessos, piora) até que a igualdade laboral entre homens e mulheres seja uma realidade.

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Por isso, termino com o que disse a Rita Paschoalin:

“As iranianas que querem decidir se usam ou não seu véu; as paquistanesas que querem ir à escola; as brasileiras que querem andar sozinhas na rua sem serem importunadas; as tantas brasileiras que querem andar no ônibus e no metrô sem serem assediadas; as mulheres de qualquer parte que não querem ser culpadas pelo estupro que sofreram; as mulheres que não querem morrer porque não querem permanecer em um relacionamento; as grávidas que não querem perder seus empregos; as mulheres de qualquer parte que querem decidir se serão ou não mães; as meninas que querem brincar de qualquer coisa; as engajadas que querem disputar espaços políticos sem serem julgadas por sua aparência; as mulheres trans que querem sua identidade de gênero respeitada; as amigas que rejeitam a piada machista; as mulheres que amam outras mulheres; as feministas que nos mostram todas elas. Cada uma delas luta todo dia. Força, queridas. E obrigada.”

8 DE MARÇO É DIA DE LUTA.

Fontes:

[1] https://www.publico.pt/2018/03/08/sociedade/noticia/santas-maes-rainhas-so-15-das-ruas-com-nomes-proprios-sao-de-mulheres- 1805679[2] http://www.observatoriodegenero.gov.br/…/homens-recebem-sa…/
[3] http://g1.globo.com/…/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travest…[4] https://economia.uol.com.br/…/mulher-negra-continua-com-men…
[5] http://www.redebrasilatual.com.br/…/mais-tempo-gasto-com-tr…
[6] https://www.nexojornal.com.br/especial/2016/02/15/Nomes-de-ruas-dizem-mais-sobre-o-Brasil-do-que-voc%C3%AA-pensa
[7] http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/…/IPEA_DossieMulher…
[8] http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs239/en/
[9] http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,diariamente-4-mulheres-morrem-nos-hospitais-por-complicacoes-do-aborto,10000095281

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Algumas anotações sobre “Cat Person”

Teve aquele texto na New Yorker, “Cat Person”, que viralizou loucamente e eu – como de hábito – não entendi por quê. E vou tentar comentar sem ter entendido. Bora ver onde consigo chegar.

Vou contar como li o texto, pra começar. Como já li há um tempo, vai ser um resumo bem resumidinho. Uma moça e um cara começam uma historinha, bem de leve. Se encontram uma ou duas vezes e adquirem alguma intimidade por mensagens de texto. Tão comum nos tempos atuais. O cara se afasta em algum momento, a moça manda mensagens e mensagens, o cara reaparece. Conversam, brincam, trocam ideias, piadas. Mandam carinhas pra lá e pra cá. Combinam de sair – vão ao cinema e, em seguida, beber algo. Tudo meio desajeitado: a escolha do filme, a bebida depois.  Na hora ir embora, ela sugere ir pra casa dele. No meio do caminho fica em dúvida, mas aí, já tinha dado a ideia, né. Quando chega na casa dele ela perde o tesão, de repente. Olha pra ele e não tem mais vontade nenhuma de trepar. Só que já estava ali, já tinha concordado. Não se sentia ameaçada, era apenas difícil dizer que não sem motivo, àquela altura. Então, sim. Sexo “por cortesia”, ou por constrangimento. Vão pra cama e tudo o que ela quer é que aquilo acabe. Sem dar nenhum sinal a ele disso. Não diz o que gosta, não mostra o que quer, apenas se deixa levar. Depois, quando acaba, ela vai embora e simplesmente não quer mais contato com o cara. Que, evidentemente, fica sem entender nada.

O texto rodou um monte por aí, assim como os zilhões de textos que se seguiram a ele. Mas é basicamente isso. Uma noite de sexo ruim. Que viralizou.

Não é apenas isso, porém: é também a história de uma relação que existia – tantas mensagens, tantos textos, tantos emojis – e que deixou de existir porque o sexo foi ruim. O cara, aquele com quem ela conversava, se divertia e ria, de quem tinha saudade depois que desaparecia, esse cara deixa de existir de uma hora para outra. Nenhum cuidado lhe é devido, é como se o sexo fosse um “tudo ou nada”.  Como se fosse a prova dos nove. Como se ela ter perdido o tesão e ter trepado com ele mesmo assim justificasse riscar o cara de uma vez da vida, assim.

Eu acho meio esquisito, na real.

Sexo ruim é só sexo ruim é só sexo ruim é só sexo ruim. Gente é mais que isso. Claro que uma trepada casual de alguém que se conhece em uma noite pode ficar apenas nisso e não pede explicações: só que não era o caso ali. Não vi ninguém falando disso, embora tenha lido tantos textos sobre esse texto. O ponto de vista dela, o ponto de vista dele. Mas com foco no que seria o ápice da história: o sexo ruim. Ninguém discute muito a relação pré-existente e o que acontece com esta depois. E quando o cara, no final das contas, perde a compostura e manda uma sequência de mensagens grosseiras, é como se tudo fosse justificado: era apenas um “macho” equivocado, que não merecia nenhum respeito ou atenção.

Sei lá. Fiquei sentindo falta de alguma conversa no pós. Ou, pelo menos, de uma mensagem mais simpática. Tipo “não rolou bem, mas a gente pode se falar”. Ou “vamos ficar sem se falar um tempo, depois a gente vê”. Ou … alguma coisa, né?  Nem precisava falar mesmo de novo, era só um jeito de não encerrar assim abruptamente. Achei, mesmo, que a protagonista da história meio que objetificou o cara. E jogou fora sem nenhum cuidado a relação que existia, como se não fosse nada. Como se o fato dela mesma não ter conseguido dizer que não estava mais com tesão fosse justificativa pra simplesmente descartar o cara. O cara inteiro, quero dizer, e não somente o sexo. Porque ele, a pessoa, merecia alguma consideração da parte dela, não? Eu acho que sim.

Tem outra coisa, que é o próprio sexo ruim: certo, ela não disse que não queria. Mas, já que tinha topado, podia talvez colaborar um pouco praquilo ter alguma chance de ser razoável, né? Não me pareceu. A moça simplesmente se deixa fazer e cria fantasias pra conseguir levar o ato até o fim. Não há nenhuma tentativa de interagir com o cara. É como se ele estivesse ali para satisfazê-la. Ou como se o fato dela não querer no começo já destinasse tudo ao fracasso e a desobrigasse de qualquer participação efetiva no processo. Ora, tem tanto sexo que começa mais ou menos e depois melhora, com alguma ajuda dos participantes…

E, na verdade, esse “sexo ruim que define tudo” me parece exatamente o outro lado dos livrinhos de banca para moças, aqueles Sabrina, Bianca, Julia, em que o sexo bom define tudo. O cara pode ser o que for, um canalha, um bruto, mas pega a mulher de jeito e… pronto. Está tudo resolvido. Como se não precisasse de mais que isso. Como se toda a relação encontrasse seu sentido ali. Uma espécie de “e foram felizes para sempre (trepando muito e tendo múltiplos orgasmos cintilantes)”. Tão igual aos contos de fada.

Sexo, ruim ou bom, é apenas sexo. Não precisa ser abismo e não precisa ser paraíso. Além de precisar contar com a participação das duas pessoas envolvidas. Não é algo que está dado antes de acontecer. Se não for bom, não é necessariamente “culpa” de ninguém. É tentativa e erro,  né? E, às vezes, acerto. Há que se ter alguma boa vontade. Alguma generosidade. Alguma atenção com o outro. Se interessar, alguma persistência.

Por aí.

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